outra vez os médicos

 

Ser pai do Gui conferiu-me – para além de uma profusa refundação do panorama capilar, por via do aparecimento contínuo e generoso de grandes tufos brancos de cabelo onde, outrora, vicejava uma floresta cerrada (cada vez menos cerrada, cada vez menos floresta) negra como as noites sem lua – uma especialidade pragmática: a de detectar e avaliar, em pouco tempo, diferentes PEA’s em diferentes miúdos que, aos olhos destreinados de outrem são, simplesmente, “esquisitos”, “tardios de desenvolvimento” ou “mimados”. Como o diagnóstico, na sua enorme maioria, tem uma base unicamente comportamental, tenho sempre hipótese de estar certo. Os prognósticos, regra geral, reservo-os para mim e não tenho dúvida que a maior parte das luminárias médicas da nossa praça, quando falam de autismo, deviam fazer o mesmo, usando para tal as suas variações preferidas da modesta fórmula: vamos fazer o nosso melhor para potenciar-lhe as capacidades até ao limite daquilo que ele pode dar, ao invés de: vai correr tudo bem, com muito trabalho esse miúdo aos seis anos já fala, escreve, e em nada se distancia dos seus colegas de turma normais. Lamentavelmente, numa sociedade em que o médico alavanca o seu poder na recusa em dialogar tu-cá tu-lá com aqueles que lhe pagam os honorários, escudando-se num mistério medieval e tornando opaca a sua prática pela utilização abusiva de um paternalismo que diminui o seu interlocutor pela inserção contínua de jargão técnico que, não servindo para explicar nada, antes reforça o poder do médico de intervir sobre o presente para modificar o futuro, é quase impossível pedir a sua excelência a lista de premissas que o levou a tomar aquela conclusão como corolário de um processo de pensamento, sob pena de cada pergunta feita ser respondida como se fosse um ataque à autoridade do clínico. Resta o bardamerda e o passar bem, e a recusa em pagar honorários a bestas. Talvez o futuro, não trazendo a cura para o autismo, nos traga pelo menos uma geração de pessoas que não acreditam estar entre o céu e a terra, exercendo, para bem alheio e glorificação pessoal, uma arte mágica que deve ser posta a salvo da populaça. Gente com quem falar. É disso que precisamos.

 

Publicado em autismo. 9 Comments »

9 Respostas to “outra vez os médicos”

  1. CCF Says:

    Por onde param os antigos médicos de aldeia que conheciam as pessoas e as suas famílias? Hoje, seja em que especialiade for, estão ao computador…e raramente levantam dali os olhos para nós. Se não nos olham, como podem querer compreender-nos?! E há ainda a terrível arrogância…não podia estar mais de acordo.
    ~CC~

    • Pai Says:

      A vertigem das médias acabou por desumanizar a profissão. Os médicos agora formam-se para gozarem do estatuto de superioridade que os licenciados foram perdendo à medida que o ensino se democratizou.

  2. Mina Says:

    Que o futuro nos traga seres humanos, que não se julguem superiores e não tenham medo dos sentimentos, que falem de igual para igual com a populaça:)

    Eh! nós temos sorte a nossa médica de familia tem aprendido algumas coisas connosco desconhecia a SA na realidade:)
    Beijinhos

    • Pai Says:

      sim, principalmente seres humanos que saibam que não nos estão a fazer favor nenhum quando cumprem as funções para as quais são pagos.

  3. M. Says:

    Triste mas verdade… As piolhas andaram 3 anos a ser marteladas com “cada criança tem o seu ritmo” em pseudo consultas de desenvolvimento. Até vir um médico de família dar ouvidos à louca da mãe dessas piolhas e as encaminhar para o serviço correto. E afinal elas tinham PEA… E afinal, tal como o Valério, aquilo que eu hoje vejo logo e sem grandes dificuldades em outras crianças também vejo sem dificuldade ao rever os vídeos das piolhas de quando eram bebézinhas. E não sou médica nem técnica comportamental nem terapeuta nem professora do ensino especial. E também não gosto do afastamento e do ar superior de médicos que prometem milagres ou que nos digam que não há esperança. Gosto que me expliquem as coisas como deve ser porque, se não o fizerem, na consulta seguinte, eu já saberei o que eles me deveriam ter dito e ouvem o que não gostam. Não sou conflituosa; só estou farta de passar por maluca quando eu sabia desde sempre que as piolhas não eram como as outras crianças. Eu colaboro com a ciência se a ciência colaborar comigo. E com as piolhas.
    Beijinhos para todos

  4. Rainbow Mum Says:

    Teria tanto para falar sobre este tema… Percorri tantos médicos e profissionais de saúde e não houve nenhum que me conseguisse explicar exactamente o que se passava, esclarecer as minhas dúvidas o que me obrigou a fazer um percurso de aprendizagem que deixou grandes mazelas pelo caminho… Como sabes nem todas as fontes de informação são as melhores e quando somos auto-didactas na net corremos o risco de ler muita coisa não filtrada e verdadeiramente alarmante… Até conseguirmos entender tudo percorremos um longo e perigoso caminho e acabamos por ter que falar com outros pais para conseguir entender um pouco mais o que se passa com os nossos filhos. Bendita Internet nesse sentido, que nos permite agora contactar uns com os outros…

    Falei neste percurso com 4 médicos. E tive 4 diagnósticos distintos. “PEA ligeira”, “Essence” (???), “Imaturidade neurológica – não é autismo”, “talvez seja uma PEA ligeira, ou Asperger, ou talvez hiperactivo com atraso de linguagem…”. Prognósticos em todos foram positivos e consideram que ultrapassará as dificuldades. Ditos de forma diferente pelos 4 e sem me saberem dizer porquê…:

    1º – “PEA ligeira. Bom prognóstico. Creio que será um adulto perfeitamente enquadrado, sem qualquer problema.”
    2º – “Nada de autismo! Isto é Essence! Olhe este puto é tipo o Bill Gates em pequeno está a ver? Vai ser um espectáculo, genial!!! Aposto a minha carreira nisso! Tem é que começar já a aprender a ler, agora mesmo com 2 anos!” (tás a ver quem disse esta, certo?)
    3º – “Não. Isto não é autismo. É uma imaturidade neurológica. Vai ficar bem com a maturação cerebral.” Pergunto: “Então e estes sinais? Li que estão relacionados com um PEA… Porque diz que não é?”. Resposta: “Porque sim. Quanto ao que lê, também lê o horóscopo e acredita?”… Enfim…
    4º – “Eh pá se o médico X diz que é PEA ligeira e pelo que vejo aqui também acho que possa ser… O Y diz que não é porque está habituado a ver coisas mais graves e nem valoriza… Mas olhe que o Y é que sabe disto! Bem talvez de facto até possa ser, mas ele cumprimentou-me, olha-me nos olhos, respondo ao que pergunto… Apesar de ter aqui de facto alguns traços… Olhe o Cavaco Silva, por exemplo! Ninguém me tira da cabeça que ele não é autista!!!”

    E é assim, consultei as 4 maiores sumidades de Lisboa e quiça do país e fiquei sem entender nada… Deixei de procurar um diagnóstico e sinceramente nem quero saber mais disso. Cada vez me convenço mais que nem eles sabem do que falam, isto porque eu própria quando mais leio e estudo o assunto mais dúvidas tenho… O grave é mesmo traçarem prognósticos totalmente fechados a crianças de 2 anos! De garantirem que não terá problema nenhum ou pelo contrário garantirem que é um caso gravíssimo, que nunca vai falar ou ser autónomo. Sei de casos em que uma especialista em autismo de Coimbra disse a uma mãe aos 2 anos que o filho era autista clássico, nunca ia falar na vida e essa criança com 7 anos está hoje na escola sem qualquer acompanhamento e necessidade de diagnóstico. Noutro caso disse a uma mãe que seguramente o filho ia falar e hoje com 9 ainda não fala…

    Humildade é o que de facto precisam estes profissionais. Admitirem que o cérebro é o orgão sobre o qual menos se sabe. Que fazer prognósticos ou fechar diagnósticos em tenra idade é o mesmo que fazer apostas. Que cada cérebro tem o seu percurso independente que nos pode surpreender.

    Ás vezes era bom ouvir: ´”Há de facto aqui qualquer coisa. Mas ele tem 2 anos não dá para fechar diagnóstico nenhum nem ganhamos nada com isso. Temos é que intervir e fazer já as terapias necessárias para atingir o seu máximo potencial. Há de facto casos em que a evolução é tão positiva que no futuro não terão qualquer problema. Há casos em que não… É cedo de mais sabermos mas o espírito positivo, o optimismo, a criança sentir que acreditamos nela e que a encorajamos a ir mais longe pode fazer verdadeiros milagres”.

    Era isto e só isto que eu precisava ter ouvido quando o meu filho começou este filme aos 21 meses. Talvez não tivesse passado pelas depressões que passei… E olhando para ele hoje com 5 anos nunca imaginei que ele fosse tão longe, pois ouvir autismo no início matou as minhas expectativas…

    E todos os dias me está a surpreender…

    • Pai Says:

      o Miguel Palha continua a dar naquela droga de laboratório que faz as pessoas vomitarem optimismo e neologismos. Tivesse eu um euro por cada diagnóstico em que se profetizam génios em quinze minutos.

      • Rainbow Mum Says:

        Curioso que ele agora está diferente… Contou-me uma mãe que já não assume a mesma postura… Terá lido o teu livro :)?


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