olha, até eu tinha saudades de me ler

 

Há muito tempo que não actualizo a tasca. Mudei de casa há um mês e qualquer coisa e, se tenho andado a tentar que caiba na Betesga nova o Rossio antigo, antes disso ainda tive de pôr a coisa a meu gosto, que portas castanhas escuras em casas pequenas está visto que não é grande aquisição estética. Felizmente, e porque tenho família e amigos (obrigado T., Sérgio, Alliette, Tó) a coisa compôs-se, de tal modo que o que falta, agora, são umas pentelhices inconfessáveis que têm que ver com a pintura dos rodapés e a remoção de tinta dos azulejos de 1850, um trabalho a fazer à noitinha, enquanto se ouve música ou se vê um filme pouco exigente.

Reparei que há um movimento por parte do Estado (não tive ainda forma (tempo) de perceber em extensão e profundidade, o que é) de afastamento da Escola inclusiva que foi o paradigma da última década no que diz respeito à educação dos alunos com necessidades educativas especiais. Compreendo que para muitas pessoas, este é um retrocesso inaceitável; há crianças dentro do espectro que podem perfeitamente continuar nas suas turmas de ensino regular, beneficiando com isso da atenção pedagógica que lhes é devida e fazendo, tanto quanto possível, um percurso escolar que não difere do da maioria. Mas se isto é verdade para algumas crianças (e seria importante quantificar, por alto, quantas crianças do espectro estão dentro deste grupo), para outras é precisamente o oposto: a insistência na inclusão acabava por prejudicar o aluno com necessidades especiais na mesma medida em que prejudicava o professor e turma onde o aluno estava inserido. Mormente por ser uma medida socializante, avulsa, sem consideração pelo real impacto da sua adopção nas estruturas que rege (estas medidas, igualitárias por decreto, brilham pela aura de modernidade que transmitem e que não encontra equivalência, em muitos casos, na realidade onde se inscreve, porque a realidade reage ao que é cegamente estipulado por decreto), nunca me foi particularmente apelativa. No caso específico do Gui, não vejo qualquer vantagem em que ele seja obrigado a frequentar uma turma do ensino regular. Pelo contrário: é uma criança com necessidades tão diferenciadas das dos outros que merece – e precisa – de qualquer coisa à sua medida, isto é, que atenda àquilo que ele tem para dar (a nível humano e “escolar”, no sentido lato) e àquilo que ele precisa para funcionar diariamente.

Quando penso no futuro escolar do Gui, não é numa sala de aula a fazer um teste de inglês que o vejo. Surge-me antes numa sala muito semelhante à sala de ensino estruturado que ele frequenta agora, adaptada à sua idade, com outros miúdos como ele a fazerem desenhos e legos nos intervalos de aprender a abotoar correctamente uma camisa. Claro que gostava de estar enganado e que a realidade ultrapassasse esta ficção que criei para ocupar a linha do tempo, mas tenho a sensação de que não andarei tão longe disso como gostaria. Sendo que é verdade que cada caso é um caso, quantas crianças beneficiam de acompanhar a maioria na sala de aulas e quantas beneficiam de uma aproximação diferenciada? E não se pode ter os dois sistemas?

Publicado em autismo, Ensino. 11 Comments »

11 Respostas to “olha, até eu tinha saudades de me ler”

  1. Mina Says:

    Também já tinha saudades de o ler:)
    Quanto ao tema em questão estamos de acordo, no sentido em que cada caso é um caso e não só porque vem na lei, que tem que ser imposto e à meninos que não tem de facto condições para funcionar em sala de aula, o que até seria contraproducente.
    No entanto cabe também aos pais serem decisores na educação dos filhos e terem lucidez do que é melhor para eles.
    O que esta portaria veio alterar é que os meninos até ao 9º. ano andam na escola os tiverem CEI, apartir dessa altura passam para as instituições é esta a percepção que tenho tido de outros pais.
    Sendo agora ensino obrigatório até ao 12º. foi esta a solução que encontraram, evidente que os pais tem de ter consciência do melhor, e não ir por avalanches, mas são eles que devem ter o papel fundamental nesta decisão , tendo em conta o melhor para o seu filho/filha.
    beijinhos

  2. Avô Zé João Ventura Says:

    Já estava a estranhar a não actualização dos “trabalhos”.
    Aceito a justificação. Estás perdoado.
    E tens razão. Terão de haver os dois mundos. Porque nem todas as crianças podem ser integradas numa sala “normal”. Para o bem delas. Porque, como o teu filho, precisam de outras aprendizagens.
    Lembro-me de a Nazaré ter tido durante anos, no seu consultório, dois adolescentes, que depois de terem terminado a escolaridade obrigatória, no ensino integrado, foram aprender aquilo que, na realidade, também lhes deveria ter sido ensinado: a serem autónomos. E a Nazaré teve de andar com eles por por lojas, transportes públicos, etc, a ensinar-lhes coisas tão simples como fazerem trocos, irem às compras, utilizarem o passe nos transportes públicos, orientarem-se nesses mesmo transportes, sabendo quais tomarem, que ligações fazerem, etc, etc. Coisas que parecem comezinhas mas que fazem toda a diferença.
    Por outro lado, há “deficiências” que exigem ensino muito especializado, em estabelecimentos vocacionados, como, por exemplo, os cegos e os surdos.
    E concordo também que “( seria importante quantificar, por alto, quantas crianças do espectro estão dentro deste grupo),” até para sabermos do que falamos.
    Um abraço. E escreve sempre!!

  3. Rainbow Mum Says:

    Eh pá! Também eu já tinha saudades de o ler!!!! Welcome back🙂 Quanto à questão concordo que não há um “one size fits all”… No caso do meu filho sinto que tem a ganhar com estar no ensino integrado e vejo o impacto que tem o convívio com outros meninos “neurotípicos”. Não sei, sinceramente, que tipo de apoio necessitará apesar de hoje com 5 anos acabados de fazer estar muito mais optimista face ao futuro, continua ainda a ter dificuldades em muitas áreas que não sei se a maturidade irá corrigir. Sei de casos que isso aconteceu e sei de outros que não. Enfim, cada dia é um dia e já aprendi que não posso tentar adivinhar o futuro e o seu prognóstico. No entanto, apesar de em algumas áreas ele até parecer ter capacidades até acima da média, noutras está ainda ao nível de miúdos de 3 anos… A conversação, a capacidade de estabelecer relações com os outros, as birras, a rigidez de pensamento, etc… E morro de medo de entrar na primária e os outros putos gozarem com ele por ser diferente. Ás vezes quando a diferença é muito evidente como num caso em que a criança não fala, por exemplo, creio que os outros putos entendem melhor a coisa. Quando é o caso como o dele, tenho receio que não irão entender mesmo porque é que ele é “estranho”, tem interesses tão diferentes, etc…

    One step at a time…

    Beijinhos

  4. Rainbow Mum Says:

    Já agora deixo aqui um video que a mãe do blog T2 para 4 colocou. O rapaz autista que aparece na reportagem começou a falar aos 8…
    Fala de vários casos de deficiência e todos a trabalhar e quase autónomos. Talvez mais do que muitos que vejo por aí sem problema nenhum.

    http://t2para4.blogs.sapo.pt/165734.htm

    Beijos

  5. Estrumpfina Says:

    Olá, olá!
    Esta questão é muito pertinente. Eu não consigo ainda prever se a Cathy vai acabar num CEI ou não Acredito imenso na sua capacidade, duvido em igual proporção na capacidade da escola de a aproveitar. O grande medo que tenho desta portaria está na realidade actual que eu vejo nas instituições actuais.Não há resposta específica para casos de autismo, não existe essa especialização porque normalmente elas atendem na sua maioria casos de multideficiência que têm necessidades muito diferentes das dos nossos meninos.

    bjs

  6. CCF Says:

    Eu conheço uma escola pública que tem uma unidade especializada em autismo, foi uma grande luta para a conseguirem mas funciona muito bem. Dão o apoio especializado que as crianças precisam mas também partilham com os outros momentos que podem partilhar. Afinal trata-se de uma aprendizagem mútua e se não houver oportunidades de relação a distância entre uns e outros será cada vez maior. Soluções flexiveis e adaptadas a cada caso em vez de um paradigma único seria o ideal. Contudo vivemos num tempo em que o paradigma é um e só um e parece que isso tem tendência a alastrar-se a outras áreas da vida.
    Também já tinha saudades de o ler.
    Abracinho
    ~CC~

  7. Leonor Abreu Says:

    Olá Olá🙂

    Foi com um grande🙂 que vi no mail que havia novidades do Trabalho de Casa.

    Acho que não preciso dizer muito mais. O meu tem 5 anos e PEI e está cada vez mais funcional, mas quero estar ao lado dos pais que têm filhos com CEI para estes poderem decidir o que acham melhor para os seus filhos sem estarem dependentes de leis dúbias e segregadoras.
    Queremos o melhor para eles e isso nem é discutível🙂

    Beijo grande e outro ao Gui

  8. M. Says:

    Ora viva!! Que bom voltar a lê-lo!
    Espero que a mudança de casa esteja já concluída e no sua fase de rescaldo.
    A legislação escolar é um grande poço: cabe tudo lá dentro mas nem sempre o melhor indicado nem o que, de facto, lá deveria entrar…
    Na escola para onde as piolhas irão, existem duas unidades de trabalho a par com o ensino regular: uma unidade multideficiências e uma unidade estruturada. Na unidade multidefciências, onde costumo estar mais tempo a brincar com os meninos, há lá casos gravíssimos que sabemos logo que nunca farão nada na escola… Há lá uma menina com paralesia cerebral grave que é alimentada por sonda, não fala, vê extremamente mal, reage por estímulos ao toque e som com um sorriso ou alguns sons. A menina tem o nome numa turma mas raramente está com a turma. Passa o seu tempo entre terapias e estímulos e cuidados na unidade multideficências, com outros meninos que têm problemas menos graves.
    Na unidade de ensino estruturado, os trabalhos são diferentes e nem todas as crianças com necessidades lá vão, ou seja, parece-me que só lá estão com o professor de ensino especial ou terapeutas em determinadas alturas e passam mais tempo com a turma do que os meninos da outra unidade.
    As piolhas vão estar numa turma regular e só terão terapia da fala fora da sala de aula, vão estar o 1º período como todas as outras crianças sem qualquer tipo de rótulo ou decreto lei por trás para avaliação da sua adaptação. No jardim de infância, elas não têm nenhum tratamento diferenciado (excepto em momentos de crise, cada vez mais raros) e reagem bem ao que é é feito para todos, são as melhores da sua turma. Para elas não faz sentido estarem numa unidade, fora da sua turma.
    O que prevê o PEI do Gui? Não há a hipótese de ele poder ter um pouco dos dois mundos? É que o Gui não fala – ainda! – mas poderá vir a fazê-lo, surpreendendo toda a gente e poder beneficiar de uma manhã sentado ao lado de colegas a fazerem cópias de letras e números bem como de uma tarde a tentar aprender e a exercitar-se para abotoar casacos…
    Desejo mesmo que tudo corra pelo melhor.

    beijinhos

  9. Ana Says:

    Olá Valério
    É claro que pode haver os dois mundos. É uma opção das famílias das crianças com NEE tal como é das famílias das crianças que as não têm. O que não falta por aí são opções de ensino especializado segregado. Nalguns casos até pagas pelo Estado. Em relação à Portaria 275-A o problema é que, quer as famílias queiram, quer não, a opção passa forçosamente por instituições de ensino especial e não há a possibilidade de haver financiamentos para outro tipo de entidades.
    A Inclusão é um caminho complexo mas que, se bem conduzida (na prática sabemos que tem problemas), pode levar-nos a uma sociedade mais flexível e tolerante e menos “entra porco, sai salsicha”. Por isso, por principio, prefiro que por decreto seja a inclusão porque pode sempre haver excepções à lei😉.
    Beijos


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