o paranóico

 

Sou amigo de muitos pais de crianças autistas no Facebook. Amigo virtual, entenda-se. Nesta nova modalidade de estar acompanhado na vida, as pessoas vão substituindo a voz pelo teclado e as expressões faciais pelos emoticons. A coisa resulta, porque somos tremendamente adaptáveis.

Tenho visto que muitos dos meus amigos, recentes e mais antigos, publicam quantidades enormes de fotografias dos seus filhos, para gáudio de quem gosta de ver crianças felizes, especialmente crianças a quem, muitas vezes, não se pode dar mais do que as condições para a felicidade, porque tudo o resto (educação, escolaridade, etc) está severamente condicionado pelo autismo. É bom ver que a felicidade é transversal à escala de competências.

Preocupa-me uma coisa, no entanto, e isso prende-se porventura com o meu lado mais desconfiado: a exposição das crianças nas redes sociais onde, virtualmente, qualquer um pode assumir qualquer identidade. No Facebook pode se ser várias personas, todas elas suportadas por colecções de fotos alheias pelas quais se atestam as identidades fictícias. Por isso preocupo-me com a história das fotos, com a possibilidade de elas poderem servir de mapa ou pista para alguém que me queira atingir ou magoar o meu filho. Como o Gui não fala, não saberia relatar uma experiência de rapto ou violência. E obviamente, mesmo sabendo de antemão que não sou ninguém para alguém se preocupar comigo, e que sou menos que ninguém para qualquer inimigo que possa ter, não quero facilitar, pelo que não ponho fotos dele em parte alguma. Fico mais descansado se as pessoas só tiverem acesso às minhas fotografias e à minha cronologia de actos disparatados. E fico preocupado por haver nesse facebook fora tantas crianças demasiado identificadas porventura à mercê de quem queira, estudando fotos, contextos e localidades (só os pensamentos são privados e nem isso se garante eterno) fazer mal a alguém. Porque os nossos são os indefesos dos indefesos.

Publicado em autismo. 7 Comments »

7 Respostas to “o paranóico”

  1. Ana Says:

    Completamente de acordo. Se calhar também sou um bocado paranóica😉

  2. atena Says:

    Sem duvida que pode ser um risco! Mas se quizermos ser todos um bocadinho “paranoicos”, Risco é tudo… Desgraçadamente, o amontoado de loucos que têm como alvo crianças não centram as suas acções apenas nas redes sociais… Muitos deambulam pelas ruas, perto de escolas, parques, centros comerciais, praias, ou bem bem pertinho de nós… O perigo, nesse caso está em todo o lado. Muitas histórias de episodios macabros de pedofilia (que é o tema que abordas aqui, não têm origem no facebook)…

    • Pai Says:

      De facto, o perigo normalmente até está concentrado num círculo mais próximo da criança e do seu dia-a-dia, mas ainda assim sou da opinião de que a exposição (mais ou menos) pública das nossas crianças tem mais desvantagens do que vantagens.

  3. ccf Says:

    Não considero isso paranóico, acho que é lucidez. Além do mais as crianças não têm ainda poder de escolha, pelo que a sua exposição não é qualquer coisa que elas tenham desejado ou da qual tenham consciência. A minha questão é ética e ultrapassa o medo de perseguidores vários. Quando chegam a adolescentes eles proprios se expõem e é preciso trabalhar isso com eles e tem sido o que procuro fazer com a minha filha, explicando-lhe como a sua imagem, além de poder ser vista por milhares de pessoas, a permite rotular. Eu que só tenho um blogue e não uso redes sociais por manifesta falta de interesse e de tempo, não uso nunca fotos de outras pessoas, a não ser que lhes tenha pedido autorização.
    Beijinhos
    ~CC~

    • Avô Zé João ventura Says:

      Se calhar terá razão. Eu posto muita foto. Por vezes só num grupo muito restrito. Outras, para todos os amigos. Vou ponderar.
      Avô Zé João

  4. Gisela Marques Says:

    Olá!
    É a primeira vez que aqui comento, mas parece-me que poderia dar uma achega à reflexão comum sobre este tema. Tal como o Valério, não coloco fotos dos meus filhos e minhas muito poucas. Sempre achei os caminhos da Internet, em termos de protecção de dados, no mínimo muito pouco claros. E mais convencida fiquei dessa insegurança quando, há uns meses atrás, estive numa audição do Parlamento Europeu sobre pedofilia e quejandos, estando presentes profissionais que lidam com estes fenómenos no dia-a-dia, no terreno. Foi assustador. Qualquer foto, qualquer documento, mesmo depois de apagado, deixa rasto. E as fotos de crianças encontradas nos computadores de pedófilos e em sites frequentados pelos mesmos, depois de apagadas, voltam a ser encontradas alhures. Nada desaparece da net! Um inspector da polícia judiciária sueca falava em fotos de bebés de 3 meses… Parece-me que nós não temos noção do que anda por aí, pelo que prefiro evitar riscos.


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