Ainda sobre o Raun Kaufman

 

Muita gente me tem ligado e escrito, até pessoas das quais não ouço há séculos, a alertarem-me para o facto do Raun Kaufman, pop star mais brilhante do firmamento dos autistas recuperados e cobaia de um método que, posteriormente, ficou conhecido como “son-rise”, estar em Portugal a conferenciar sobre si próprio e sobre o milagre de ter sido curado pela sagacidade e persistência dos pais, e de como isso está ao dispor de qualquer um, por uma módica quantia de dólares, convertida numa ou mais conferências/simpósios, que são também um degrau para as terapias mais direccionadas, nos States, onde por uma pequena fortuna os pais e criança podem passar um par de semanas a serem instruídos (os pais) e estimulados (a criança).

Nós já experimentámos o son-rise. Aliás, o nome do blog é indicador disso. A mãe do Gui passou um ano com ele, em casa, a simular uma playroom, com apoio de duas terapeutas inexcedíveis. Não resultou como queríamos, infelizmente. Não obtivemos o milagre Kaufman. Na altura, o método era pouco conhecido por cá, e telefonámos para os States a pedir informações. Mandaram-nos CD’s motivacionais e muito marketing. Lembro-me de nos telefonarem repetidamente a insistirem que fizéssemos um curso na América, no Option Institute, que nos proveria de mais ferramentas para lidar com o Gui e estimulá-lo. Lembro-me de a coisa funcionar por degraus: primeiro um curso introdutório, depois um médio e, lá para o fim, havia a hipótese de frequentar um curso avançado e de ir lá com o próprio gaiato para submetê-lo aos cuidados intensivos dos melhores terapeutas do Option.

Lembro-me de o marketing estar tão bem configurado e montado que eles não ficavam desanimados por não dizermos que éramos apenas portugueses pobres com esperança. Eles tinham (e julgo que devem continuar a ter) um site com uma parte vocacionada, exclusivamente, a ensinar os interessados a angariar fundos para fazer os cursos. Tudo muito americanizado, mas conversível no peditório à portuguesa. Pessoalmente, não gostei da abordagem, e achei os cursos excessivamente caros. Connosco não funcionou (e a ideia parece-me boa, vai de encontro a outras coisas como, por exemplo, o floortime), talvez porque à altura, arranjar voluntários, numa net sem Facebook, era sumamente difícil, e aguentar um projecto desta monta, sozinha (a mãe), durante um ano, era tarefa para revirar o juízo do mais acertado dos homens ou das mulheres.

Já me chegou de Raun Kaufman e de son-rise. Estou em paz com a coisa. Não percebo, no entanto, como conseguiram tanto tempo e espaço de antena. Ainda por cima no Verão, quando o Autismo não é um tema muito sexy para servir ao jantar. Eles continuam bons no marketing, só pode.

 

14 Respostas to “Ainda sobre o Raun Kaufman”

  1. Rainbow Mum Says:

    Pois eu concordo consigo. Abomino e causa-me arrepios a máquina que eles montaram e quando vi há um ano pais a angariarem dinheiro para a formação em Tróia seguindo as instruções e dicas do “Pack de Angariação de Fundos” que eles disponibilizam então aí achei aquilo tudo de uma agressividade comercial como nunca achei possível! E olhe que eu trabalho em Publicidade e para ficar chocada com práticas comerciais agressivas é preciso muito🙂 Mais, há uns tempos fizeram uns anúncios a imitarem os famosos “I´m a Mac, i´m a PC” que a Mac fez para gozar com os PC´s que achei de uma falta de ética escandalosa. A atacarem o ABA como se a terapia deles fosse milagrosa mais uma vez com o Raun a dar a cara. Espreite aqui: http://www.youtube.com/watch?v=6QW6bIbUzK0&feature=related.

    Tudo aquilo faz-me lembrar uma seita ou algo tipo Herbalife… E até o meu pai, que considero um homem inteligente e da ciência, foi ver o raio da conferência este fds porque uma doente lhe tinha falado sobre esse assunto… Que era um método fantástico e que ele tinha que ir ver. Claro que lhe expliquei que a meu ver não passa de facto de um embuste para sacar dinheiro a pais desesperados.

    Uma outra que fiquei doida foi quando no outro dia reparei que eles já expandiram a coisa e agora além de autismo o Option Institute também fala de recuperação para Parkison e imaginem Esclerose Múltipla!!! Bolas, eu que tenho uma pessoa na família há dez anos a sofrer gravemente acamada com essa doença fiquei doida quando vi um video de uma fulana a dizer que desde que começou com espírito positivo nunca mais teve surtos e está “recovered from Multiple Esclerosis”. Que está tudo na nossa cabeça, que é tudo uma questão de manter o espírito positivo! Pois a pessoa da minha família que está doente era e continua a ser a pessoa com mais espírito optimista que conheço, com mais força de viver e infelizmente com 30 anos teve o pior tipo de esclerose multipla que existe, galopante, e ficou pouco tempo depois numa cama a viver um sofrimento atroz há dez anos… Enfim, é revoltante…

    Agora inda ao método em si, e esquecendo tudo o resto, não acho que seja mau. Muito mais facilmente implementaria esta abordagem com o meu filho que o ABA e isso tenho a certeza. Esse último sim causa-me arrepios e faz-me lembrar o treino que se faz aos cãezinhos… Sim, porque cheguei a ir a um Instituto ABA e fiquei parva quando ela me disse que para o meu filho fazer as coisas tinha que ser por repetição, nem nas férias podiamos parar, 8 horas/dia (com 2 anos caraças!!!) e que lhe davam uns incentivos como por exemplo uns M&M´s e registavam tudo numas folhas com escalas e com os objectivos vs resultados… E a analogia era: “Se nós trabalhamos por dinheiro, eles trabalham para receber a recompensa”. Nem queria acreditar…

    Acho que contudo quem quiser implementar um método semelhante pode comprar o livro do Greenspan, ver videos na Net sobre Floortime e até outros sobre Sonrise. Não tem que ir pagar valores absurdos para fazer o dito curso. Se eles tivessem tão preocupados em recuperar crianças então porque não colocam o curso online? Right…

    No outro dia eu fui uma das pessoas que lhe mandei a reportagem da TVI. Não por causa do raio do Sonrise… Mas porque aparecia um miúdo que depois da tal idade em que já não é suposto dizerem as primeiras palavras, disse. Não sei se tem a ver com o Sonrise que implementaram… Não faço ideia. Já vi outros casos que foi com ABA. Outros que foi sem nada… Só para lhe dizer, e isso sim acredito, que não há essa idade limite para uma criança poder dizer as primeiras palavras. E que não quero que desista, apesar de tantas vezes apetecer e sei como é quando tentamos muito e não há resposta, pois quero muito acreditar que o Gui lhe venha a dar a alegria de um dia comunicar consigo. Falando, escrevendo… Não sei. Mas que consiga um dia transmitir-lhe o que vai dentro dele.

    Não sei se deverei mas cada vez que vir casos em que isso acontece vou-lhe enviar… Se achar que abuso diga por favor.

    Um beijinho

  2. sofia Says:

    Concordo convosco Pai e RainbowMum. Eu tenho de ver para crer, ou pelo menos de conhecer melhor. E lá fui eu à palestra gratuita cá no Porto. O senhor é um ‘excelente’ conferencista, capta a plateia, fala de coisas tão óbvias que até dói. E as ideias que deu, até eu tinha usado com o meu filho, antes de o conhecer. Mas custa muito, como mãe, ver a facilidade com que ele garante que as coisas correrão bem e lindamente, se fizermos a formação deles. Custa como mãe, muito. Mas logo me recompus e pensei, não careca, não me vais enganar tão facilmente. O meu filho conheço eu.
    Beijos

  3. Ana Says:

    Eu fiz as duas formações Son-Rise, em Portugal e acho, sinceramente, que valeu a pena. O Son-Rise é um método muito bem estruturado que faz apelo a toda a nossa força comunicativa e criativa e tem por consequência o conseguirmos transmitir ás crianças que “falar” connosco pode ser muito positivo. Estou a ajudar duas famílias (duas crianças muito diferentes) a implementar o programa e temos tido um sucesso que estava muito para além das nossas expectativas.
    Uma das coisas que se aprende é que os pais são fundamentais para o processo (para mim isso há muitos anos que faz sentido) mas não se podem esgotar querendo fazer a parte de leão no directo. É por isso que os voluntários são fundamentais, para alem dos terapeutas. Hoje em dia é razoavelmente fácil encontrá-los.
    Também tenho aprendido que gerir estas equipas é uma tarefa de gigante mas que, com o apoio de uma rede muito bem montada, se faz.😀.
    Dito isto, tenho pena que vocês tenham sido visionários “avant la lettre” e tenham gasto a vossa energia sem obter resultados positivos.
    Em relação à linguagem o que eu posso dizer é que , muito antes das minhas formações, primeiro em técnicas cognitivo-comportamentais e agora em Son-Rise conheci e fiz parte de aquisições de comunicação verbal aos 9 e aos 15 anos. Por isso o meu lema é: nunca dizer nunca.
    Se quiseres podemos falar acerca disto…
    Em relação ao marketing, concordo que é agressivo e por vezes de mau gosto. O video que a Rainbow Mum partilhou é terrível e escusado. Fui à Conferência do Raun este ano, não tanto para o ouvir, mas para estar junto das pessoas com quem partilho a crença Son-Rise. Entendi melhor algumas coisas que ele diz…
    Beijinhos

    • Pai Says:

      É sempre bom ter uma versão positiva das coisas, ainda mais quando eu sou normalmente tão incapaz de a produzir. Gostava muito de te ouvir falar sobre o tema da aquisição de linguagem, do que fizeram para que isso acontecesse, de como estruturam os programas, sobre o que incidiram. Seria possível?

      Obrigado.

      • Ana Says:

        O que se fez já nem sei dizer bem porque, como disse, foi antes das minhas formações em terapias estruturadas com programas bem definidos. Ou seja, foi há bastantes anos atrás.
        A incidência sei qual foi: A partir dos mínimos interesses das crianças em questão, num trabalho muito estreito com as mães, presentes nas sessões,criar situações de interacção espontânea. Usámos gestos, símbolos, tudo o que havia na altura para aumentar a comunicação e, a certa altura, eles começaram a achar que aquele era um jogo que talvez quisessem jogar e experimentaram, primeiro só um som… depois outro… e mais outro.
        É importante salientar que o que se conseguiu não foi uma linguagem bem articulada e com boa estrutura gramatical, nem tão pouco, um léxico vasto, mas sim uma possibilidade de comunicarem os seus desejos, contar episódios das suas vidas (ainda que só para os iniciados), e essencialmente, estarem muito felizes. E é claro que não foi simples nem linear como parece escrito assim.
        Neste momento estou a viver um novo desafio, com uma criança de 6 anos que nada diz. Por enquanto, digo eu🙂. Desta vez já terei documentação para daqui a uns anos dizer como foi.
        Beijos.

      • Pai Says:

        Posso afiançar-te que não preciso de explicações científicas🙂 estava apenas curioso em saber se usaste pecs ou spc, ou uma combinação de ambos, no que diz respeito aos símbolos, e em que contexto os usaste (casa, situações do quotidiano, mesa?) e como foste passando dos símbolos para os sons. Se conseguisses delinear mais ou menos esse percurso, ser-te-ia muito grato. Obrigado desde já.

      • Ana Says:

        Naquela altura só tinha feito formação em MAKATON e em PICS (não PECS). Usei os dois. Hoje em dia continuo a considerar o MAKATON muito útil para acompanhar a linguagem. Eu usava, durante as sessões, às vezes de forma estruturada, com imagens de coisas do dia a dia (bolacha, iogurte, comer, água, carro, avião, pato…) outras vezes em brincadeira, e os pais usavam, na medida em que lhes dava jeito, em casa, nas rotinas. O objectivo era que eles comunicassem não era que fizessem gestos perfeitos ou dissessem palavras como deve ser. Eu tenho uma boa capacidade de ser “palhaço” e de os manter interessados em mim. Por outro lado as famílias confiam em mim e é facil fazerem aquilo que eu lhes vou sugerindo. Também, tudo é discutido até à exaustão😉
        Com o Makaton não há essa coisa da passagem dos símbolos para os sons. Os sons têm de estar lá, com os gestos, bem ao nível dos olhos deles e bem dirigidos às suas motivações. Acredito profundamente que se não brincares com os sons e não valorizares qualquer “ahhh” que eles façam não é interessante e eles não querem continuar.
        Para as minhas gémeas de 16 anos na altura (hoje com 34), usei muitíssimo os símbolos do PICS e hoje em dia ainda uso, em situação estruturada, os símbolos do SPC.
        Deixa-me dizer que estas conquistas demoraram dois/três anos a conseguir a um ritmo de duas sessões por semana. Nada de pensarmos que é tudo imediato.🙂
        Isto por escrito é complicado. Temos é de ir beber um cafézinho🙂

      • Pai Says:

        Moras em Lisboa? Podemos combinar isso, claramente🙂

  4. Rainbow Mum Says:

    Olá Ana! Também gostava imenso de te contactar para me dares algumas dicas. Como disse não é o método que me faz confusão mas sim a “rede” que está montada e gosto sempre de saber mais sobre as experiências das pessoas que o implementam. Achas que me podes enviar o teu email para rainbowmum2007@gmail.com? Bjs

    • Rainbow Mum Says:

      O meu filho usa o makaton na terapia da fala. Foi através desse método que começou a conseguir fazer frases mais complexas. Acho um método excelente!

  5. M. Says:

    Pai, chegou a receber algum dos meus emails no final de maio? Tentei transmitir-lhe informação sobre a tal formaçaõ de que lhe falei (“Affect-based language curriculum”) sem tentar vender-lhe a banha da cobra, obviamente. Dê-me algim feedback, por favor, quando puder.
    Tenho andado um pouco atarefada com trabalho numa área e local completamente diferentes do que fiz até ao momento e a gerir algumas frustrações e cenas que vão surgindo pelo caminho e não tenho visitado nem comentado os “blogs siameses” (usando a sua expressão) mas conte comigo no que eu puder ajudar.
    beijos

  6. isabel Says:

    ola pai
    confesso que sou fã do son rise pois resulta,mas confesso que nao faz milagres,agora combinar o CEASE THERAPY com o son rise isso sim faz «milagres»,o meu filho é a prova disso pois em 3meses evoluiu em todas as areas de uma maneira impressionante que todos os profissionais q trb com ele nem quiseram acreditar….
    bj

    • Pai Says:

      Vou ver o cease therapy, não conhecia. Quanto ao Son-rise, a minha opinião é singela: acho que é um método muito bom e eclético, com um péssimo marketing e alguns contornos que não me agradam, na embalagem. Acho também que deve grande parte do seu sucesso ao facto de ser um método intensivo. Todos os métodos intensivos obtém, sem qualquer margem de dúvida, melhores resultados.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: