O que eu gostava verdadeiramente de escrever

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Passam-se dias sem que olhe para aqui. Ou para a comida da gata. A gata aprendeu a desenvencilhar-se, acudindo-se de uma alma caridosa que esteja em casa ou rasgando o saco de purina. Com o blog é mais complicado. Na verdade eu gostava de postar todos os dias. Isso seria um indicador de que as coisas com o Gui iam mudando, de tal modo que ele evoluía, ou mostrava, frequentemente, sinais diversos daqueles que estamos acostumados a ter de há anos para cá. Diferença. Postar seria sinónimo de diferença, de que as coisas, sem sabermos para onde podem andar, andam. Mas isso raramente acontece.

O Gui é uma criança feliz, bem nutrida, saudável, de hábitos regulares e prazeres fixos. E é assim desde há algum tempo para cá. Não tem feito novas aquisições, não tem perdido as que adquirira, não surpreende, nem pela positiva, nem pela negativa, ninguém. Para mim é frustrante. Eu queria vir aqui todos os dias dizer que ele aprendera a mexer no comando da televisão ou referir a desenvoltura com que já rabisca um contorno. Não posso. O que faz com que às vezes eu escreva sobre mim, sobre o quanto o autismo me afecta, sobre a forma como vivo um problema que nele é apenas um modo de ser absolutamente tranquilo para si próprio.

Evidentemente, isto pode ser uma fase e ele acabar por dar o pulo, ou pequenos pulos, que me surpreendam. Seria um bom milagre de acontecer e, num ano tão mau como 2012, podia talvez ajudar a equilibrar o karma.

Publicado em autismo, blog. 9 Comments »

9 Respostas to “O que eu gostava verdadeiramente de escrever”

  1. M. Says:

    Oh Pai, como eu queria poder ajudá-lo… Não encare as minhas palavras como “pena” (detesto isso) mas sim como entendimento do que escreve… Custa ser otimista quando se atinge uma linha reta… O que dizem os terapeutas deste estabilizar/estagnar do Gui? E na escola, qual o feedback que lhe dão? Posso ajudá-lo de alguma maneira? Disponha, a sério. Não tenho muitos conhecimentos mas perto da minha localidade há uma instituição que trabalha com pessoas com vários tipos de problemas (desde paralesias até autismo) e poderei tentar encontrar-lhe uma resposta ou testemunho de alguém que tenha trabalhado ou vivido com alguém com as mesmas características do Gui… Também tenho acesso a unidades multideficiências escolares onde posso perguntar alguma coisa… Não me leve a mal, e peço já desculpa pelo meu “voluntarismo” (como dizia o meu antigo patrão), mas disponha, a sério.

    • Pai Says:

      Obrigado pela sua generosa oferta, fico-lhe muito agradecido. A verdade é que temos muito apoio e algum estímulo, tanto na Escola como em casa, mas nada parece ser capaz de “desorizontalizar” este estado do Gui. Ele não parece querer mais, parece feliz assim, e pouco há que fazer senão aceitar, mesmo que provisoriamente. É o intervalo. Só espero que não dure muito tempo.

      Beijinhos.

  2. M. Says:

    Enviei-lhe um mail, algo mais pessoal. Espero que seja só uma fase e seja brindado com uma surpresa.

    beijinhos

  3. rosario filgueira Says:

    pois o Gui me trae sin cuidados…. passo por cá (sempre) porque o autismo va mas alla que a primeira pessoa en singular.
    Tudo na vida passa por aceitaçao (nao resignaçao) e adaptaçao (nao conformismo) ja sei que sou muito “new age” ehehehe thanks good for that.
    um xii apertadinho

  4. Mina Says:

    Pai
    A Rosário, já disse uma frase muito importante nesta caminhada a adaptação não significa resignação e embora eu saiba que muitas vezes nos sentimos cansados e conjugamos o verbo resignar, porque não vemos evolução ou pelo menos a que previamos.
    Temos esse direito sem culpa por nos sentir-mos desalentados algumas vezes,
    Noutro dia iremos levantar nos, e ver numa pequena coisa uma grande vitáoria, e o Gui ainda vai surpreender, acredite e não fique no verbo “resignar”…
    bjinhos

    • Pai Says:

      Ontem surpreendeu-me algo ao dar uns pontapés numa bola. Coisa muito rara nele e arrancada normalmente a ferros. Tudo bem que não deu uma de pequeno messi, mas lá se aguentou um pouco na brincadeira até começar a correr para um grupo de miúdos que brincava ao nosso lado.

      Beijinhos e tudo de bom para o Bruno, Mina.

  5. ccf Says:

    As dicotomias são terríveis: falar de nós ou do outro; resignar ou lutar…e por aí. A escolha não é verdadeiramente possível e nem sempre é desejável. Fala-nos dele e ao mesmo tempo fala de si, quando fala de si ao mesmo tempo fala dele…deixe fluir…vocês são um bocadinho um do outro.
    A mesma coisa com resignar e lutar, use-os na medida das suas forças, conforme for capaz, mas não escolha apenas um deles…
    Abracinho
    ~CC~
    ( talvez eu tenha uma coisa em comum com o Gui…será que ele gosta tão pouco do Carnaval quanto eu?)


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