epifania politica em forma de prosa

 

Eu sei que aquilo que vou aqui dizer não vai propriamente (ou impropriamente) ser novidade, sei que nada tem que ver com o autismo, senão na medida em que da análise podem resultar externalidades  cujo efeito, mesmo que inquantificável, afecte o autismo, os autistas em Portugal e a sua qualidade de vida, e os progenitores dos mesmo. Então porque escrevê-lo?

 

Não há política em Portugal. Ponto. Não há política em Portugal como a há em França, Espanha ou Alemanha. Em Portugal há um teatro em cujo palco se pavoneiam os actores políticos, em permanência (quanto mais aparecer, mais ser, já dizia o saudoso Husserl) e a manutenção da longevidade da peça e do número de espectadores interessados é a o único desígnio daqueles que logram pisar o palco pelo voto ou pela cobertura mediática. Nada mais interessa. Nem ideologias, nem a matriz de pensamento do partido. O que interessa uma coisa apenas: a manutenção da peça em cena o maior período de tempo possível e não descurar o número de espectadores a visioná-la.

 

Como se faz isso? A duração da peça e do elenco depende, em larga escala, de uma espécie de “você decide” mediático. O casting vai ao confessionário (televisão, jornais, rádio, net) e o público vai votando (entrevistas de rua, blogs, telejornais, indignação ou suporte). Quando as coisas alcançam um ponto de ruptura, ora porque o público ameaça pedir que substituam o elenco por inteiro, ora porque um dos actores incorre permanentemente em figuras que o publico não aprecia e que os críticos (toda uma esfera de comentadores nos diversos canais e meios de divulgação, a soldo do partido X ou do partido Y, ou fiel ao partido do poder) não conseguem transformar, pelo marketing, num modelo de virtude cujos meios estranhos para a cumprir não estarão porventura ao alcance da compreensão mundana das coisas, o encenador faz estalar o chicote e alguém sai. Se este processo recair sobre o actor principal, as coisas complicam-se, porque para além de sair ele, pode sair todo o elenco e, nas urnas, ser escolhido um inteiramente distinto, mesmo que os propósitos coincidam: manter o público entretido.

 

Isto pode ser feito de duas maneiras: explicando os axiomas governativos para que o público se sinta também parte do processo de catarse da peça (somos todos um, e vamos todos ao mesmo) ou dando ao público, pelos meios que estar no palco concede, as migalhas de um euros, de uns complementos, de uns subsídios para tudo e para nada que o fidelizem e lhe lembrem, quando pensar nas urnas, que a generosidade alheia pode não ser tão ampla quanto a que experimentam agora; pode até queimar-se aquilo que é todos para conseguir esse propósito, que em linguagem técnica se chama atirar dinheiro para cima dos problemas e,em português correcto, comprar votos. É usual que se derretam os adereços e as receitas de bilheteira em obras de centro de palco que visem criar e perpetuar a mitologia de quem liderou o leque de actores. Porque cada elenco, sabendo que vai sair, faz como todos os homens sabendo que vão morrer, deixando um livro, filhos, algumas posses. No caso em apreço, autoestradas, planos tecnológicos, estádios e uma infinidade de coisas passíveis de terem em cena pelo empobrecimento gradual dos espectadores.

 

Dir-se-ia que os espectadores não gostam de empobrecer. Certo. Mas como o elenco, ao mesmo tempo que constrói a imagética que quer legar ao futuro, vai também montando a máquina pelo qual o dinheiro da bilheteira é redistribuído pelo público, modicamente, o suficiente para não morrer à fome, o público entra no jogo de não perceber de onde o dinheiro vem (dele) e incorpora a ideia de que o elenco, pela pessoa do seu actor principal, é generoso até mais não, porque consegue financiar os adereços e a sobrevivência de toda uma classe social, e isto multiplicando o dinheiro da bilheteira. Ou não?

 

Não é bem assim. Como ninguém consegue multiplicar o dinheiro sem o acesso à impressora onde ele se faz – e felizmente, não temos esse acesso – o elenco e o encenador costumam pedir dinheiro emprestado, ora para erigir os monumentos à posteridade, ora para mandar sobre o público esganado do preço do bilhete. O homem que empresta tem cabeça variável para as contas e é desconfiado. Se tudo estiver a correr bem, é capaz de financiar o elenco a quatro por cento, se estiver com os amoques, não levam tusto a menos de 20%. Quando isso acontece, normalmente o elenco cai, porque a tesouraria está vazia, não há dinheiro para pagar aos actores e o público já gane de fome.

 

Existe um prestamista de última instância, uma espécie de fundo de socorro de teatros, mas esses emprestam com condições: o público tem de ser reeducado, os serviços têm de ser repensados e toda a peça tem de ser mexida da primeira à última linha. E que se emagreça o elenco, dizem. E que se corte tanto quanto possível o cordão umbilical de dependência entre público e elenco, para que seja a peça o centro das atenções e que os aplausos não dependam do que o elenco se esforça por dar ao público. Isto quase nunca resulta, porque o elenco e os intelectuais da arte indígena dizem que a idiossincrasia dos povos é a forma da peça, que isto não pode ser de outra forma pelas peculiaridades sociológicos-artísticas e até se queixam de que o palco está torto. Quando alguém sobe ao palco para realmente dar um abanão no espectáculo, os que vivem à conta dele rapidamente o abafam sob um mar de críticas e de público hostis.

 

E o que acontece na política, de facto, em Portugal? Está nos bastidores, a negociar contratos e pareceres legais, posições que o elenco pode assumir depois de finda a peça, o figurino dos actores, os contratos de construção e ampliação do palco, e toda uma série de medidas pelas quais o dinheiro da bilheteira e dos credores vai sendo devorado equitativamente, porque aqui já não são os elencos que contam, mas a fidelidade umbiguista de correr por si próprio até armazenar o máximo possível. É por isso que não é infrequente ver actores que se detestavam, de diferentes elencos, a passearem de mão junta e a fazerem bons negócios. Dir-se-ia mesmo que o backstage é a finalidade última para alguns dos actores, para a maior parte mesmo, e neste ambiente, como no final de um jogo de bola, todos são eternamente amigos enquanto a rede que montaram continue a engordar de presas.

 

Onde está a moral nisto tudo? Em lado nenhum, o que é engraçado, dado sermos um povo tão casto na concepção dos costumes, amigo do seu amigo, e antes honesto que rico. Mas o teatro é a grande mentira maravilhosa do mundo, não é?

Publicado em autismo. 2 Comments »

2 Respostas to “epifania politica em forma de prosa”

  1. ccf Says:

    Excelente reflexão…
    Mas apesar do teatro ser usado como metáfora, custa-me…é que os actores são honestos na sua representação, sabemos que com eles estamos no faz de conta…enquanto os políticos querem fazer-nos crer o contrário.


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