depois da festa, as canas

.

Já jantei com a Luísa, já comentamos o magnífico fogo-de-artifício que ela se propôs a lançar, gratuitamente, do convés deste blog para todo o mundo conhecido; apreciei o gesto, afinal, o esfinge obesa, também ele, queria que no seu funeral houvesse quem batesse em latas. Tudo dentro do preceito psiquiátrico de uma certa corrente de anti-psiquiatria de esquerda que consiste em comer maçãs nas consultas para que o paciente enfie no toutiço que não padece de nada. Funcionará com a larga percentagem daqueles que não padecem de nada, e aos restantes, nada tem a oferecer senão o caroço que sobra das maçãs.

No dia da ressaca natalícia do festival da minha tristeza, devo anunciar que pouca coisa mudou, comi talvez um carocito que não me encheu a cova de um dente. Continuo assim-assim macambuzio, mas já se sabia que o tempo é o instrumento pelo qual se corrige o desnível do coração. Vou tentar vir cá mais vezes, e falar mais do Gui, e do autismo, e do que interessa. E menos de mim (já tive quanto chegue para 2012, e dizem que é o fim do mundo lá mais pró fim do ano, talvez tenha de comprar boxers novos).

Hoje vou buscar o Gui e ele dorme lá em casa, talvez Sábado à noite e domingo certamente. Estou outra vez na minha perspectiva macroscópica: quero que ele tenha um futuro condigno quando eu não andar por cá. E tenho pensado nisso. E preciso falar disso com a mãe dele, entre outras coisas difíceis. E tudo ficará bem no fim, porque se não ficar, como dizem, ainda não é o fim.

.

Obrigado aos instigadores maravilhosos desta insurreição contra a tristeza. BEIJOS.

Publicado em autismo, blog. 16 Comments »

16 Respostas to “depois da festa, as canas”

  1. rosario filgueira Says:

    mais obvio impossivel….talvez seja o momento de se deixar ajudar

    • Pai Says:

      Cara Rosário, nem me vou suicidar, nem estou a brincar. Apenas tentei transmitir que as nuvens continuam cinzentas, mas que no horizonte se adivinha a influência do anti-ciclone do Açores e talvez do Tufão Luísa.

  2. M. Says:

    Gosto do tufão Luísa. Gosto mesmo muito. E para a próxima também quero um cafezito (sou um bocado antissocial e isto de jantares faz-me espécie – também devo ser autista😛 )
    Fico contente que se esteja a avizinhar um melhor momento e um amanhecer mais rosado. Não precisamos de nuvens fofas de algodão doce ou unicórnios mas sabe bem ter um dia feliz!

    O fim do mundo costuma calhar-me todos os meses lá para dias 12 ou 13, que é quando o ordenado já se foi todo embora por causa de contas e pagamentos e prestações.E, ainda assim, sobrevivemos até ao mês seguinte🙂 por isso, esperemos que seja um fim do mundo assim do género😛

    O anúncio da coca-cola poder ser demasiado lamechas e rosadinho e blá blá blá e mi mi mim mas faz-nos ver que há sempre um outro lado para lá do lado negativo. Deve ser por isso que me deu agora para ler a “Alice no país das maravilhas”… Há sempre um outro lado, mesmo que não pareça fazer sentido ou seja muito estranho. Mas é, certamente menos negro.

    Espero que a conversa com a mãe do Gui corra bem e cheguem a alguma conclusão e consenso. Um beijinho especial para o Gui.

  3. Luísa Says:

    «Quando eu morrer batam em latas,
    Rompam aos saltos e aos pinotes,
    Façam estalar no ar chicotes,
    Chamem palhaços e acrobatas!

    Que o meu caixão vá sobre um burro
    Ajaezado à andaluza…
    A um morto nada se recusa,
    e eu quero por força ir de burro! »

    Mário de Sá-Carneiro

  4. Luísa Says:

    AQUELOUTRO

    O dúbio mascarado o mentiroso
    Afinal, que passou na vida incógnito
    O Rei-lua postiço, o falso atónito;
    Bem no fundo o covarde rigoroso.

    Em vez de Pajem bobo presunçoso.
    Sua Ama de neve asco de um vómito.
    Seu ânimo cantado como indómito
    Um lacaio invertido e pressuroso.

    O sem nervos nem ânsia – o papa– açorda,
    (Seu coração talvez movido a corda…)
    Apesar de seus berros ao Ideal

    O corrido, o raimoso, o desleal
    O balofo arrotando Império astral
    O mago sem condão, o Esfinge Gorda.

    Paris – Fevereiro 1916.

  5. Luísa Says:

    Porque nem todos gostam de se masturbar com poesia – eu gosto- , publiquei como comentários dois poemas de Mário de Sá Carneiro, que poderão funcionar como guião para a melhor descodificação do “post” do Pai, para que se entenda a que latas se refere e para que o “esfinge obesa” seja lido como paráfrase do “esfinge gorda”.

  6. Luísa Says:

    CARANGUEJOLA

    Ah, que me metam entre cobertores,
    E não me façam mais nada!…
    Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
    Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

    Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
    Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira…
    Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
    Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

    Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
    Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
    Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
    Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…

    Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
    E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!…
    Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
    Plo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…

    Se me doem os pés e não sei andar direito,
    Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
    Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
    Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…

    De que me vale sair, se me constipo logo?
    E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?…
    Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
    E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…

    Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
    Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
    Tenham dó de mim. Co’a breca! levem-me prá enfermaria! –
    Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

    Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
    Em Paris, é preferível, por causa da legenda…
    De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
    E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo…

    Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
    Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
    Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras…
    Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

    Últimos Poemas, Paris, Novembro 1915

  7. Luísa Says:

    O poema anterior toda a gente o conhece (?): é do Sá Carneiro, Mário, Poeta.

  8. atena Says:

    Passo apenas para um abraço sincero e dizer-lhe que a mim me sabe sempre tão bem ler as coisas que escreve…

  9. ccf Says:

    Insurreição contra a tristeza! Isso mesmo…O Jacob Moreno pediu que na campa dele se escrevesse: aqui jaz Moreno, aquele que tentou combinar a psiquiatria com a alegria. Calculo que fosse dos que oferecem as maçãs…mas devia incentivar os pacientes ao tiro ao alvo com os caroços.Também dizia do Freud: a tarefa dele é despedaçá-los, a minha é colar-lhes os pedaços.

    Café continua de pé (para continuar as rimas), tenho uns horários um bocadinho malucos e o meu rio não é o Tejo mas o Sado, o mote é mesmo dois dedos de conversa…se isso ajudar nalguma coisa e souber bem. Quando tiver vontade, paciência, disponibilidade, escreva para o meu mail e combinamos.
    ~CC~


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: