o miúdo anda esquisito

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Tenho tido alguns problemas este Outono. Ando a braços com uma depressão que vai e vem numa intermitência de pirilampo, o que não sendo inteiramente mau porque, podia, por exemplo, ter impulsos suicidas todos os dias, desde que me levantasse até pregar olho num terror de quem sabe ser o dormir o território dos monstros que povoam o sótão, também não facilita a minha existência, pelo facto de andar com os cornos no ar dia sim, dia não, oferecer ao portador dos mesmos uma inegável sensação de falta de controlo cuja consequência mais imediata é o achamento da inversão entre viver a vida e ser vivido por ela. Perde-se o controlo (a auto-estima, a consistência do ego). Ponto.

Não sei se por causa ou em função disso, o meu Gui tem muito menos vontade de estar comigo. E isso é uma das coisas que acentua dolorosamente a minha desesperança, criando um caricato ciclo vicioso do qual não sei sair. Chora quando a mãe o deixa comigo e saltita de alegria quando o vou levar a casa. Talvez seja a consequência do meu estado humoral, mais susceptível, talvez seja o estado humoral dele, talvez ele se esteja a desabituar de mim ao fim destes meses. Em qualquer dos casos, apavora-me perdê-lo, ainda mais sem conseguir extrair dele, pela palavra, as razões que lhe assistem ao distanciamento. E até passamos os dias bem, cantarolando e brincando. O pior é quando ele pega na mochila dele e silenciosamente se afasta, caminhando até à porta da rua onde fica a olhar para mim numa petição de gato a sofrer do desconforto da casa alheia. São facas, senhores, são facas.

Numa tentativa de suprir a desconfiança dele pela presença mais assídua, vou tentar passar três dias inteiramente sozinho com a criatura. A ver se voltamos a afinar na mesma nota os nossos dispositivos disposicionais. Não custa tentar (custa, se o resultado for uma redonda merda). Preciso que ele precise de mim para que eu continue a precisar dele. E ninguém me abraça como ele. Ninguém.

 

 

15 Respostas to “o miúdo anda esquisito”

  1. rosario filgueira Says:

    oh Pai, a esta altura, obviadades é k nao!!! Se a comunicaçao se limita se as palavras, estavamos bem fodidos !!!

  2. ISABEL SANTOS Says:

    BEM VOU DEIXAR A MINHA OPINIÃO DE AVÓ NÃO TÃO ABERTA COMO SE FOSSE POR UM MAIL…EXISTEM SITUAÇÕES NA NOSSA VIDA QUE NÃO DEVEM SER EXPOSTAS PUBLICAMENTE ,MAS DIGO~LHE QUE O GUI SENTE O QUE SE PASSA CONSIGO,SE O PAI NÃO CONSEGUE ESTAR BEM,NÃO ACEITA A SUA SITUAÇÃO,O QUE PERDEU,,,É UMA PORRA,O NOSSO ESTADO INFLUÊNCIA O GAROTO E QUEM NOS RODEIA,,,DEPRESSÃO ESSA É MINHA IRMÃ QUASE HÁ 25 ANOS MAS QUANDO O JOÃO VEM PARA CÁ DIFICILMENTE A DEIXO TRANSPARECER E EMBORA ELE GOSTE MUITO DE ESTAR COM O PAI É A MIM QUE ELE VEM BUSCAR PARA LHE DAR O QUE QUER,ATÉ PARA ABRIR A PORTA DE CASA DO PAI,,,
    AMIGO A VIDA NÃO É FÁCIL,MAS TENTE FAVOR DAS TRIPAS CORAÇÃO PORQUE AQUILO QUE VOCÊ NÃO QUER É PERDER O SEU FILHO,PORTANTO ACEITE-SE,ACEITE A SUA NOVA SITUAÇÃO,ACEITE O SEU GUI COMO É E VIVA O DIA A DIA ,NÃO PENSE NO AMANHÃ.
    PEÇO DESCULPA POR ESTE CONSELHO QUE PODE APAGAR,,,MAS NÃO GOSTARIA QUE O GUI PERDESSE O PAI,NEM SABE A FALTA QUE FAZ AO SEU FILHO…ESTES CONSELHOS TB OS DOU AO MEU FILHO,,,A VOSSA SITUAÇÃO É COMPLICADA MAS NÃO É O FIM DO MUNDO.
    PROCURE ALGO QUE LHE DÊ PRAZER E ESTABILIDADE,NÃO RECUSE TRATAR-SE DA DEPRESSÃO SE PRECISA….TUDO PELO GUI
    UM ABRAÇO FRATERNAL DE UMA AVÓ QUE …………NÃO POSSO DIZER
    ISABEL

    • Pai Says:

      Obrigado pelas suas palavras carinhosas. A verdade é que este Outono me tem trazido coisas boas e más e que tenho de habituar-me ao cinzentismo que não parece esgotar-se no céu que nos cobre.
      Vou tentar passar mais tempo com o Gui. A gente tem de os conquistar, não é?

      Beijinhos.

  3. Rainbow Mum Says:

    Como eu o entendo… A depressão que vai e vem e o ciclo vicioso… Eles sentem tudo, mesmo que façamos das tripas coração para não o demonstrar… O meu parece que tem uma antena afinada. Cada vez que eu estou em baixo ele piora e quando ele piora eu fico mais em baixo… Já bati no fundo tantas vezes que já perdi conta. Agora tenho tentado manter a cabeça à tona sendo que de vez em quando lá me volta a faltar o ar. Não pensar no dia de amanhã é algo que ainda não consegui fazer…Força aí e um abraço de alguém que sabe bem o que está a passar.

    • Pai Says:

      Obrigado minha querida. As suas palavras vem no momento certo para me fazer sentir melhor e menos sozinho. Dão sentido a que continue a escrever neste blog.

  4. ccf Says:

    Não se compare à mãe, cada um é diferente, e é muito natural que ele procure o seu ambiente primeiro de conforto, sabemos que estes miúdos tem ainda mais que os outros (e os outros também têm) uma absoluta necessidade dos seus rituais, do espaço que conhecem. Provavel/ gosta de estar consigo mas precisa de saber que volta para a mãe, de ter a certeza…e nisso é muito semelhantes a outros filhos de pais separados. E não sei se ele sabe tanto assim da sua tristeza, se a sente assim tanto, provavelmente é o pai sente assim, pois como diz cantam e riem. Nada de culpas…e claro que a depressão se trata ou vai tratando, mas não se deixe empaturrar de químicos, em vez de um depressivo teremos um morto-vivo…
    um abraço e força
    ~CC~

    • Pai Says:

      CC, tem toda a razão quando diz que “nisso é muito semelhante a outros filhos de pais separados”. Ainda há pouco estava a ler “a Morte de Carlos Gardel” e as comparações com a personagem principal, salvo as excepções autísticas, digamos, e perdoe-se o neologismo, são espantosas (um pai, um filho, um divórcio). Não se preocupe com a tese do morto-vivo. Estamos aqui bem alertas😉

      Beijinho.

  5. Atena Says:

    Pai… não há palavras que possam tornar esse seu sentir um pouco melhor. Percebe-se a sua depressão… percebe-se que não é de hoje… e antes de mais importa ter em mente que a depressão tem remédio (felizmente). Já não bastam as nossa dores reais, quanto mais deixar que por depressão elas tomem uma proporçãomuito maior. Sou das que pensam que só temos esta vida… faça algo urgente que lhe dê gosto, pai. Por certo há coisas boas para viver. Claro que o seu estado de espírito influencia o seu filho. Ele é uma pessoa, apesar do autismo… pode ter uma forma diferente de se manifestar, mas sente de certeza muitas coisas – nem por um só segundo duvido da sensibilidade destes meninos – ELES NÂO SÃO “COISAS”. Assim como acredito que ele sinta desconforto com as alterações de rotina (casa da mãe, casa do pai, etç…), também deve sentir que o pai não está grande “espingarda”. No entanto, o pai também tem esse direito, apenas não deve deixar que o mesmo se prolongue muito… (especialmente quando é tão simples curar uma doença tão comum nos nossos dias, como é a depressão – os remédios não são inimigos… muitas vezes são completamente necessários, e fazem a diferença entre a vida e a morte (seja ela real ou figurada). GRANDE ABRAÇO DE FORÇA… se a força que ponho nas minhas palavras conseguisse chegar até si, pode ter a certeza que num segundo ficaria muito melhor – o pai e o filho!

    • Pai Says:

      Obrigado Atena. O Outono está a castigar-me mas tenho a certeza que as coisas vão melhorar não tarda. E com tantos apoios, mesmo que virtualizados, é impossível não nutrir esperança.

      Beijinhos e obrigado.

  6. M. Says:

    Tem MESMO de arrebitar, Pai! Mesmo!! E tem de pôr essas cenas esquisitas para trás porque o raio da crise não nos deixa ser sócios das empresas farmacêuticas.
    Vou contar-lhe uma coisa que me aconteceu há uns anos: em 1999 diagnosticaram-me uma depressão com esgotamento. Andei a antidepressivos e ansiloticos anos demais até que um dia, devo ter adormecido ao volante e quando dei por mim não reconheci o local onde estava. Foi há mais de 6 anos. Ainda hoje estou para saber como diabo cheguei até ali sem me ter lançado barreiras abaixo e ir parar ao rio. Nesse mesmo dia, desisti de toda essa porcaria que me entorpecia o raciocinio e o corpo. Andei duas semanas a tremelicar e a arranjar desculpas para não ir dormir até que estabilizei. E até hoje, nunca mais voltei a essas drogas. Em 2009, o médico voltou a falar-me em depressão e eu recusei-me a tomar fosse o que fosse e, sozinha, lá dei a volta por cima. E nem sequer sonhava que os comportamentos inadequados das piolhas fossem um sinal de autismo! Por elas e por mim, não volto a cair nesse poço. É escuro demais, é fundo demais e a subida é do mais penoso. E eu sou demasiado cobarde para passar por essas dores novamente.
    A única coisa que ainda vou tomando é valdispert – o genérico que é mais barato lol – 1 cp à noite porque isto de andar acelerada todo o dia reflete-se também no sono.

    Upa, upa! Esses 3 dias com o Gui vão certamente fazer bem aos dois. Acredito que sim. E se o Pai estiver bem, ele estará bem. Se o Gui for como as minhas, ele sente como o Pai sente…. E isso reflete-se no seu comportamento e como não sabe lidar com as emoções, daí esse alheamento, talvez. Nada de desespero, tá?

    Muita força. Estou por aqui para o precisar.

    beijinhos,

    • Pai Says:

      Obrigado M., as coisas começam a melhorar lentamente e tenho a certeza que os dias que vou passar com ele serão benéficos para o restabelecimento da nossa relação e das nossas felicidades.

      Beijinhos.

  7. Daniela Santos Says:

    Estava a ver se evitava responder, mas hoje estou num desses dias também.
    Não lhe digo para arrebitar, não é assim tão simples.
    O mau-humor (não me apetece chamar-lhe depressão) vai e vem. Há dias muito maus e há dias maus. E depois há dias que escapam, certo? Só temos que ter esperança que o dia de amanhã, é dos que escapa. E se for um dia bom? Fixe. Se não for? É só mais um…
    Nunca mais vem a Primavera…
    Beijinhos aos dois

  8. M. Says:

    Como tem andado, Pai? E como estão a correr esses dias com o seu Gui?

  9. Rainbow Mum Says:

    Anda muito calado…Estamos com saudades🙂

    Beijos


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