A crise

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Vou voltar à vaca fria (e magra). Na verdade, vamos todos. Na verdade, esse é o nosso estado natural, do qual episodica e ciclicamente saímos quando descobrimos o ouro do Brasil ou os fundos comunitários. Como esses acontecimentos são apenas fogos-de-artifício numa noite longa – mesmo que dignos de elegias e promotores de umbigismos tão intensos quanto estéreis – o que acontece é embevecermo-nos pelo colorido de pipoca que estala uns breves dez minutos e tomarmos aquela pequena parte pelo todo. Embebedamo-nos com pouco e profundamente.

Este pequena introdução serve o pedagógico propósito contextualizador. Numa altura em que se fala de cortes no OE, especialmente no que concerne a educação e a saúde, a pergunta que me circunda a meditoesfera, diariamente, pode ser formulada do seguinte modo: quanto tempo tardará até que a tesoura acabe por afectar a estrutura que, por ora, me sossega relativamente à qualidade do tempo que o meu filho passa na Escola. Quando é que perderemos a terapeuta da fala ou a terapeuta de apoio da APPDA ou mesmo uma auxiliar cuja presença é indispensável para o equilíbrio do ecossistema da sala TEACCH? E não tem que acontecer tudo de uma vez. As coisas podem ir sumindo até ao dia em que a gente se dá conta que na sala de ensino especial só já existe uma educadora, caída sobre o beiral de um esgotamento profundo, a perseguir, à vez, os putos que vão destruindo o que resta dos horários estruturados enquanto o meu Gui naufraga à frente de uma televisão a dar os mesmos bonecos em repeat.

Eu sei que sou naturalmente pessimista. Mas isto é um cenário possível e credível. E se ele vier a dar-se, talvez tenha de pensar em emigrar. Com o Gui. Porque a grandeza de uma cultura ou de um povo mede-se pelo respeito e atenção que dedicam aos mais fracos.

11 Respostas to “A crise”

  1. Atena Says:

    É uma possibilidade que também me assusta. Mas não quero pensar nisso agora. Por este ano, tudo se mantém, a ver vamos no proximo. Uma “guerra” de cada vez, por favor! Abraço

  2. Luísa Says:

    O nosso povo sofre de nanismo…

  3. rosario Says:

    “La prueba de la moralidad de una sociedad es lo que hace por sus menores”(Dietrich Bonhoeffer)

    Como os menores nao votam –

    Tenho guerras diarias pelos recortes no orçamento da Xunta de Galiza (20 Nov no parlamento a votaçao)… Entre 45.000/60.000 menores tutelados en España – menores invisiveis pois estao institucionalizados (en orfanatos) e nao teem pais que lutem por eles… De p*ta pena – como por aqui se diz

  4. ccf Says:

    Por estes dias temos todos uma espécie de mala à porta, um desejo grande de partir para outras paragens. Porém ficar é também resistir e lutar, a ver vamos o ponto onde as nossas forças convergem, que seja pelos mais fracos – sempre!
    ~CC~

  5. Rainbow Mum Says:

    Soube no outro dia que o Pedro Passos Coelho tem um irmao com Parelisia Cerebral. Nem que seja por isso tenho esperanca que por enquanto nao se facam mais cortes na educacao especial… Falando no meu caso neste momento pago todas as terapias do meu filho (mais de 400 euros por mes) pois as listas de espera no estado na minha zona sao gigantes…e estupidamente parece que por nao ser um dos casos mais graves bem que podia esperar sentada…

  6. M. Says:

    Espero que esses cortes, cedo ou tarde, não cheguem. Já bastam os erros concursais de colocação de docentes de ensino especial e piip no distrito de Coimbra e as minhas piolhas ainda não terem tido uma única sessão de apoio no jardim de infância… Aguardo porque sei que esta situação está a resolver-se – foi-me afirmado por fonte muito segura.
    Prefiro, honestamente, pensar que Portugal ainda tem uma leve réstea (como diz a minha avó) de dignidade e não vai buscar dinheiro sacrificado a essas áreas. Que tal os grandes clubes de futebol? É uma sugestãozinha… Por causa de loucuras de euros 2004s, o nosso hospital pediátrico teve um mero atraso de 6 anos. Give it or take it.

  7. Daniela Santos Says:

    Pois… por aqui os cortes já se sentem: ficámos sem psicóloga e sem educadora do ensino especial.
    Espero, portanto, por dias melhores…

    • Pai Says:

      Fico com muita pena que isso tenha acontecido Daniela, até porque é uma das coisas pelas quais lutamos para evitar. Se precisar de ajuda (i.e., de quem faça barulho consigo, diga). Beijinhos.


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