A imunidade é um adquirido instável

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Quando começamos a citar-nos a nós próprios, é sinal que estamos demasiado jovens e, desde logo, enamorados das tontices que dizemos, ou demasiado velhos e incapazes de superar o que já dissemos. Não vou enquadrar o caso em apreço, porque não gosto de me ver em nenhum dos opostos do espectro que enunciei. Deixo isso para quem me faz a higiene mental regularmente.

O que (re)aprendi: a presença do mais-que-tudo-que-se-foi-embora, na nossa vida, ocorre ao modo do pirilampo. Às vezes até as hipóteses normalmente mais dolorosas me parecem escandalosamente fáceis de aceitar e noutras ocasiões tudo é um revolto mar de merda, perdoe-se a figura da figura de estilo. Escatologias à parte, importa considerar o essencial: conseguimos sobreviver ao fantasma do amor? Teoricamente, o tempo toma conta de tudo sob a forma da pacificação e do esquecimento, o que não é mais do que uma espécie particular de anestesia. Sendo uma anestesia, o que acontece não é deixar somente de existir a dor, mas também toda a zona afectada deixa de ter sensibilidade, o que quer dizer que o que se ganha pela positividade da dor que se finda, perde-se pela negatividade do desaparecimento do órgão afectado. E não há forma de saber, até porque estas coisas ocorrem em zonas interiores de acesso interditado, o que é que se perdeu, quanto do bebé se atirou fora com a água do banho. E se calhar todas as experiências-limite são assim: experiências que nos trazem e tiram bocados, como quem constrói, em braille, a figura humana com plasticina.

2 Respostas to “A imunidade é um adquirido instável”

  1. Cap? Says:

    correcção: o órgão afectado não desaparece. perde sensibilidade. o efeito da anestesia passa quando já não existe mais dor. o órgão continua lá. a ferida sarou. nada fica como dantes é certo. por vezes fica melhor. mais forte.
    tenho para mim que o tamanho da dor sentida é sempre proporcional às capacidades de amar do órgão e essas são inatas. há sujeitos com órgãos excepcionais, capazes de grandes feitos.

  2. ccf Says:

    O título diz tudo, e é muito bonito, parece o início de um poema.
    Sim, bocados de nós que parecem mortos, mas os tecidos têm também uma força desconhecida e às vezes iniciam programas próprios de reabilitação. O mais estranho é passarmos por alguém que amámos e não sentirmos nada, perguntarmos até como foi possível a termos amado tanto e sofrido por ela. O que mais fica afinal é a desilusão do amor, uma sombra…


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