Vou dar um conselho relativamente inútil

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Porque não o segui. Não se casem. Não se juntem. Não tenham filhos. Alguém há-de fazer isso por vocês e cumprir a sacralizada missão de repovoar o berlinde. Se casarem podem separar-se. Podem ter de lidar com pessoas que vos conhecem intimamente e que sabem onde estão as feridas nas quais podem barrar quantidades generosas de sal grosso. Podem vir a arrepender-se de períodos relativamente largos da vossa vida, em bloco, e minorar ainda mais a imagem que tem de vós próprios. Podem vir a achar que esta merda toda não vale a pena, e podem não andar longe da verdade. O tempo encarregar-se-á de desmontar o estado-merdoso-de-coisas em que se encontram, mas nada vos restituirá a inocência perdida que invejam nos outros e nas crianças. Nunca mais se é virgem. E quando se meterem noutra relação, se por acaso não aguentarem o facto indespedível de estarmos sozinhos desde que nascemos, já vão fazê-lo ainda a lamber as feridas da relação passada. E cada vez será mais difícil. O fim é uma casa de repouso, uma algália e bolachas de água-e-sal. Com sorte, uma doença que apague a memória e uma morte rápida.

26 Respostas to “Vou dar um conselho relativamente inútil”

  1. Atena Says:

    Pai… não posso contrariar que essas são vivências possiveis a todos nós de experimentar, ao longo da vida. No entanto, no meio de todas as chatisses, acredito que se vão vivendo também pequenos grandes momentos… coisas assim mesmo boas e saborosas que devemos valorizar e até procurar – o mundo não é um berlinde – o mundo é uma coisa imensa e repleta de oportunidades (a todos os níveis)! Precisamos é mudar o nosso estado de alma, o pensamento… obrigarmo-nos a viver e não nos resignarmos a sobreviver aos dias que vão passando! No meio de tanta “merdisse”, há sempre coisas positivas para equilibrar o caminho! Ha tempo para tudo, e também há que nos dar-mos tempo a nós… tempo de cair, de chorar, de doer… e tempo para voltar a mesa e mudar o rumo… nem que seja só um bocadinho… começar a olhar para os lados…

    • Pai Says:

      É a minha perspectiva cansada e frustrada e desiludida a falar sem ter grande coisa para dizer. É um desabafo. É a conclusão de que dez anos de vida em comum equivalem, na prática e noves fora, a um quase nada residual que se mantém sob a forma de ressentimento. Amanhã vou estar melhor, hoje está a ser difícil. Obrigado.

      Beijinhos.

      • Helena Sabino Says:

        Pai, acredita que consigo compreender esse sentimento de frustração, desilusão,etc…Também eu já me revi nesses sentimentos e pensei da mesma forma. O tempo ajuda a serenar os sentimentos e hoje sei que prefiro arrepender-me daquilo que fiz e vivi, do que daquilo não fiz… Se olhares para trás, vais ver que houve coisas boas…. As coisas são difíceis,mas não impossíveis…Espero que o dia difícil de hoje, não se repita por muito mais…Bjs

      • Pai Says:

        Eu quanto ao arrependimento, Helena, tenho de sobra para o que fiz e para o que não fiz. É uma merda, mas o arrependimento e a culpa são em mim coisas tão entranhadas que tenho dificuldade em pensar a minha vida sem estes dois aspectos. Beijinhos.

  2. M. Says:

    Deixo-lhe as mesmas palavras sábias que me deixou no outro dia “por vezes temos que descer para voltar a subir” e eu acrescento, com outro ânimo. Está numa fase má mas como diz a outra, “amanhã é um novo dia”. E tem sempre o seu Gui.

    Chore, desabafe, lamba as feridas, vá-se abaixo mas depois é respirar fundo, enxugar os olhos (e se, calhar até colocar umas saquetas de chá frias para disfarçar o inchaço), erguer a cabeça e para a frente porque atrás vem gente! É mais fácil falar do que fazer, mas, com calma, o estado merdoso das coisas vai acabar por deixar estar assim e sentir-se-à outro.
    As empresas farmacêuticas não precisam da sua colaboração por isso nada de deprimir😉 . Toca a arrebitar!! Força, Pai!!

    • Pai Says:

      Obrigado M.

      Isto às vezes (o tempo de separação não é suficiente para que a poeira assentasse completamente) descamba. Ontem foi um dia mau, dias melhores virão e tenho sempre o meu Gui e a perspectiva de que a idade possa ser clemente e apagar algumas memórias dolorosas que carrego. Tem de haver uma vantagem até no envelhecer, não é?

      Beijinhos.

      • M. Says:

        Claro que sim! Ficamos mais cultos e mais inteligentes a vários níveis, até a nível emocional. Pode parecer distante agora mas é assim.

        Vá, hang in there!

  3. Daniela Santos Says:

    Não gostei. A sério, não gostei nada.
    Eu sei, há dias (semanas e meses) assim… alturas em que penso que seria mais feliz se ele não tivesse nascido, alturas em que penso que ele estaria bem melhor sem uma mãe ansiosa, pessimista, deprimida e revoltada.
    Sim, não é o único a pensar assim.
    Povoar o berlinde nunca foi uma das minhas metas, ser mãe sim. E o que aconteceu a toda essa expectativa? Isso mesmo, balde de água fria! E o que foi que fiz? Durante muito tempo… nada, para além de sentir pena de mim própria. E sabe que mais? Fui aos antipressivos! Fui, admito! E a merda continua lá… eu é que não me incomodo com cheiro…
    Em relação ao resto… sozinhos todos estamos, mesmo quando acompanhados com alguém que amamos e nos ama. Temos que aprender a levar a coisa, um dia de cada vez… e neste momento, se alguém me pisa, eu piso de volta! Estou-me a borrifar para o que os outros pensam! Chama-se a isso sobreviver, Pai.
    Inocência? Só leva a desgraças! Que se lixe a inocência!
    Portanto, o que lhe posso dizer? Não deixe acumular toda essa frustração! A vida dói, e custa muito a passar. E quando chegar à fase da algália (que imagem tão má!), não quero ser frustrada porque devia ter feito ou dito o que quer que fosse… Já que cá estou, aturem-me! Posso não ser a melhor mãe do mundo, perfeita de certeza que não sou, mas não vou deixar de tentar dar o melhor que posso ao meu puto!
    E como costuma dizer o meu pai “Pimenta, no cu dos outros, para mim é refresco!”, ou seja, deixe de se ralar com o que se passa com os outros, pense em si…
    Quem sabe, a vida não muda?

    Beijos grandes e estou por aí, se precisar de uns tabefes. Dizem que resulta. (⌒‿⌒)

    • Pai Says:

      Daniela, eu aprecio tudo menos a porrada, sim? E já vi pelo seu blog que também acumula doses elevadas de frustração e que também anda de montanha-russa emocional. Temos de ter ambos cuidado para não descarrilar. E vamos esquecer os tabefes, por ora, e concentrar-nos nos miminhos, que são bastante mais proveitosos.

      Beijinhos.

  4. Rainbow Mum Says:

    Pai, ha dias assim. Em que pensamos coisas que sabemos que nao sao verdade porque a dor e frustacao ataca-nos com uma forca incrivel. Mas pense so como foi sortudo por ter tido um grande amor na sua vida, ter amado alguem e ter sido amado, ter tido a felicidade de ver nascer um filho desse amor. Quantos passam por esta vida sem terem vivido essas experiencias unicas e esses momentos de felicidade plena. Claro que aquilo que tem maior potencial de nos deixar felizes tambem e o que tem maior potencial de nos arrasar quando corre mal…

    Mas a sua vida nao acabou aqui. Pode vir a amar e ser amado novamente, com a mae do Gui ou outra pessoa, pode vir a ter mais filhos e voltar a sentir novamente essa felicidade unica e tem ainda muitos anos pela frente ate chegar a fase da algalia (credo pai!).

    Se precisar de mais uns tabefes, estou ca para ajudar.

    Um beijinho

  5. Cap? Says:

    Ouça, Pai Do Seu Filho, (tenho pouca vocação para educadora de infantário, a tratar tudo quanto é homem por pai, para não me enganar)…só tenho uma coisa a dizer-lhe: a caixa de comentários deste blog começa a parecer-se demasiado com a série da Floribela e sus muchachos. Fui.

    • Pai Says:

      Cara Cap?, sinto pelas suas palavras que pode ser uma criatura ainda mais frustrada que eu. Até gosto da ideia. Já não me lembro é da Floribela, tenho de confessar. Não costumo ver televisão e tenho má memória. Sei que a moça tem uma filha com nome estrangeiro, nada mais. Vá, mas volte. Todas as criaturas têm o seu lugar, mesmo numa caixa de comentários de um blog recôndito sobre um assunto pouco relevante mediaticamente (ainda mudo o nome disto para Saiote Escocês, para obter mais atenção).

      Beijinhos.

      • Cap? Says:

        Voltei, como é óbvio, apenas para acrescentar que essa sua necessidade de agradar a gregos e a troianos, com estes comentários melosos e compreensivos, tipicos de quem está de bem com a vida, combinam pouco com a raiva, tristeza e frustração que destila nos seus posts. Vá, sim, eu sou frustrada. Todos os comentadores anónimos são. Isso é público. O que tem a perder em descarregar a sua neura em mim? Normalmente é essa reacção provocada pelos comentários anónimos e ofensivos. Aproveite. Não se acobarde. Reaja!

      • Daniela Santos Says:

        “Saiote escocês” parece-me bastante bem.
        Ah! E agora sim, é este o espírito!!!!😀
        Beijinhos*

  6. Rainbow Mum Says:

    Ola Cap? Acho que a sua frustação deve ser bem maior que a de todos nós juntos… Para seguir um blog que fala de um assunto que provavelmente nem sequer é do seu interesse, felizmente para si, e fazer este tipo de comentários. Mas há espaço de certeza neste blog para mais um frustado, mesmo que não seja pelos mesmos motivos e por isso esteja à vontade.

    Bem, isto agora está quase a parecer uma reunião dos Frustados Anónimos🙂

  7. Cap? Says:

    oh mãe arco-iris, que violência. então?! pensava que aqui só vinham pessoas carinhosas e compreensivas, apesar das ameaças de tabefes e assim. achei que o Pai do filho dele estava a precisar de um saco de boxe e pús-me a jeito. vocês ofereceram o tabefe. eu dei logo um, a ver se pegava. a sério. era um acto puramente altruísta. mas afinal, como já se viu pela resposta à daniela, do que o pai gosta mesmo é de mimos. para além de frustrada-mor, sinto-me também inútil.
    quanto ao autismo, acho que, de vez em quando faz bem a todos intervalar. importa pouco a minha ligação a esse tema e não é sobre isso que este post fala.

    • Rainbow Mum Says:

      Ok Cap?, já entendi…Achava que este era um blog sobre sado-masoquismo e ficou deveras desiludida quando percebeu que afinal somos todos uns lamechas que só queremos é miminhos…Ainda se entusiasmou um pouco com a conversa dos tabefes até perceber que afinal não lhe ia tocar nada… Vá, não fique assim. Crie o seu próprio blog sobre o tema que vai ver que vai encontrar muita gente que não se importa de tê-la como saco de boxe para descarregar as suas frustações e vai certamente passar a sentir-se menos inútil. Quando o fizer, venha cá visitar-nos e deixe-nos o link para podermos ir lá de vez em quando intervalar do tema do autismo… Acredite que precisamos!

      E Pai, continue a falar daquilo que lhe apetece. Da minha parte confesso que adoro ler o que lhe vai na alma.

      Vê Cap? afinal também sei ser meiguinha🙂 !

      • Cap? Says:

        Ah! Eu também sei dar miminhos. Tome lá um cutchi-cutchi e um pote de mel para o arco-iris!🙂
        Já me denunciou e, ficou claro que me pelo por apanhar. Fiquei muito impressionada sobre as suas capacidades de adivinhação sobre as minhas preferências sexuais. Vou criar o tal blog, conforme sugeriu, e conto com um tau-tau seu. Ui!

      • Pai Says:

        Cap?, meu bem (importa-se que a abrace onomasticamente apesar da sua espinhosa resistência ao carinho?), como poderá verificar pelos conteúdos deste blog e pelos comentários que aqui vão deixando, a onda é mais miminhos e menos porrada (salvo excepções clinicamente fundamentadas). Pessoalmente, o medo de um conflito verbal não me assiste, pelo que poderemos, agora e no futuro, dirimir as nossas posições obviamente opostas até onde a argumentação nos satisfaça. Se for caso de insulto em vez de argumento também não me acanho. Passei pela faculdade, letras, e sei calão que até no Cais Sodré é dito em surdina. Em suma, diga o que quer e ao que vem e a gente dança ao seu ritmo. Quem é amigo?

  8. ccf Says:

    O assunto é interessante e de lamechas pouco tem. As relações amorosas são mesmo complexas e exigentes, e a solidão é uma hipótese que a todos se coloca e às vezes está-se bem nela. E o ressentimento custa muito quando combina quando alguém que amámos tanto.
    Mas depois regressa muitas vezes uma luz que se torna intensa e lá vamos atrás dela, e de pouco vale sabermos que nos podemos desiludir tanto como no passado. E afinal cada vez é única e diferente de todas as outras. No mais, liberdade para comentários, comentadores e sobretudo autor do blogue, que escreva o que lhe apetecer.
    ~CC~

  9. Cap? Says:

    oh, Pai do Seu Filho, agora deixou-me sem chão. não posso aceitar o seu abraço porque fico sempre desconfortável quando começo a sentir apreço pelas pessoas. retraio-me. gosto de pessoas a quem o medo do conflito verbal não assiste. estamos na mesma praia. assistem-me outros medos mais na linha dos que expõe no seu post. reajo é de forma diferente. sinto asco das minhas feridas e por isso não as lambo. e agora se me dá licença, vou pregar para outra freguesia, antes que o seu bom feitio me adoce e caia na tentação de me compadecer das suas dores… vou também, para serenar esta vontade pulsante de que me sussure calão do cais-do-sodré ao ouvido.
    PS- Ao que vinha? À procura de atenção, pois claro. Não é isso que procuramos todos?

  10. Atena Says:

    Que tristre conversa esta (na minha modesta opinião que pouco ou nada vale). No entanto e porque este blog me parece ser bastante democrático, expresso-a aberta e livremente. Parece um combate diplomático de palavras azedas com pouca utilidade… É pena,porque as palavras, mesmo quando se trata de um simples jogo, têm sempre um peso imenso e se carregadas de veneno, envevenam mesmo. Abraço

  11. Rainbow Mum Says:

    Tem razao Atena… Obrigada por nos chamar a razao🙂 um beijinho


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