Vemo-nos em Agosto, Gui

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A lua-de-mel finda brevemente. Eu e o Gui passámos cerca de três semanas na companhia inseparável um do outro e com isso aprendemos (rectificando, aprendi) a tolerar aquilo que menos gostamos um do outro, valorizando adequadamente as coisas que por vezes, muito especialmente na minha fase mais autista (em que eu próprio só era capaz de focar, no Gui, aquilo dele que menos me agradava), nos eram menos evidentes e menos visíveis. Poderia (e deveria) rectificar todo o período anterior e assumir devidamente a responsabilidade pela mudança: eu consegui, por fim e mesmo não arriscando dizer tratar-se de uma aquisição definitiva, ver o Gui através do véu do autismo, sem me focar unicamente neste último, que era o que eu fazia habitualmente, à falta de saber melhor, à falta de uma adequada reeducação do olhar. Consegui-o por força da vontade, por persistência? Como consequência da ausência prolongada do Gui, da minha exposição a ele aos bochechos? Gostava de ter uma resposta, até para poder provê-la a quem me perguntasse o que é necessário para que um cão velho aprenda truques novos mas, na verdade, não tenho senão a satisfação infinita de ser bastante menos cretino agora do que era há uns meses. Fora isso e noves fora, nada.

Há arestas por limar (eu quero sempre mais dele e fico sempre aquém da satisfação que devia mostrar por aquilo que ele consegue, síndroma de pai exigente) e continuam a existir coisas que, amiúde, me tiram do sério, como quando ele faz xixi pernas abaixo meia hora depois de ter ido à casa-de-banho ou o facto de ele comer, ainda e sorrateiramente, coisinhas que apanha com a pinça dos dedos do sofá, do chão, da mesa. Tudo bem, respirar fundo, contar até dez e imaginar uma planície onde pululem as tais setenta e tal virgens que inspiram os feitos heróicos dos seguidores de Maomé. Eu nunca vou ser perfeito o suficiente para ter a paciência e disponibilidade infinita da mãe do Gui, por exemplo. Há que reconhecê-lo e encontrar em mim a coragem necessária para que isso não seja (mais um) desastre existencial. O meu melhor não é o melhor. Tudo bem.

O tempo que tive com o meu filho nas últimas semanas foi a melhor coisa que a mãe dele jamais me deu. As férias dela foram o catalisador de uma mudança (mesmo que inacabada e temporária) tão profunda, em mim, que eu termino estes dias primaveris na companhia do meu filho com a sensação de me ter tornado, mesmo sem ter a noção de como, uma pessoa incrivelmente melhor. Não fora o meu temperamento neurótico-depressivo e arriscaria a dizer que estou feliz. Mas o estar feliz reveste-se para mim de uma sacralidade tal que só o facto de falar nisso ou escrevê-lo pode perverter e arruinar a disposição. Bate na madeira e vamos fingir que não se falou disso.

Quando ele sair de casa, hoje ou amanhã, pelas mãos da mãe, e a vida retomar a sua rotina, vou estar simultaneamente mais rico e mais pobre. E, mesmo mais solitário, certamente mais completo. Obrigado Gui, pela paciência de convenientemente me educares.

Publicado em autismo. 2 Comments »

2 Respostas to “Vemo-nos em Agosto, Gui”

  1. Noris Says:

    Gostava de poder ler o testemunho da mãe, sobre a ausência do filho em férias com o pai. Só de pensar que na próxima semana ficarei sem o meu encrenca, por 10 dias, até me dá um aperto.😦
    Para mim vai ser o pior momento do divórcio.
    Um abraço.

    • Pai Says:

      Não lhe posso fornecer, mesmo que indirectamente, o testemunho, mas posso dizer-lhe que a festa que fez quando o viu mostrou que sentiu falta dele e que estava super-feliz por vê-lo. Acho que compensa😉


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