GAE – Paisemrede, um balanço

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Acabou o primeiro módulo das Oficinas de Pais ( Grupo Apoio Emocional ) do paisemrede. É altura de cumprir a rotineira mas indispensável avaliação retrospectiva. Vou tentar, até porque me parece ser mais imediato e mais correcto, escrever sem sistematizar em demasia a experiência; prefiro um desconjunto interessante de estilhaços, através dos quais se possa reconstituir uma versão tão perto da imediatez da experiência quanto possível, do que uma súmula objectiva e organizadinha, sem carne nem polpa por onde afiar o dente.

Uma primeira palavra para os meus colegas de curso: inexcedíveis na partilha de vivências e absolutamente honestos. Compreensivos, interessados, apaixonados. É óptimo poder falar de determinados assuntos sem precisar de pre-estabelecer um território de pre-compreensão mútua. Com eles (diria melhor, elas) foi fácil dispensar os preliminares através dos quais se estabelece um plano no qual se pode falar sem medo de ser mal interpretado ou, a revés, esgotado de prover tantas explicações sobre o que é ter um filho assim ou assado.

Com isto não se quer dizer que estávamos sempre de acordo, ou que passámos dias a evangelizar-nos mutuamente. Pelo contrário. Aliás, o problema quando se conversa com o pai ou uma mãe de uma criança normal não é um problema de “desacordo”. É um problema de linguagem fundado numa dissociação de experiência impassível de ser teoricamente superada. Exemplo: como falar da necessidade de um cobertor a um equatoriano que nunca tenha sentido frio? E explicar-lhe teoricamente o que é o frio? Tudo isto está implícito, em maior ou menor grau, na experiência e comunicação do que é ter um filho deficiente. Não se pode doutrinar ninguém sobre o assunto. O máximo que podemos fazer é uma de duas coisas: encontrar pessoas com sensibilidades excepcionais a nível de empatia, de tal modo que desenvolvem espontaneamente as pontes necessárias para possibilitar a comunicação, dispensando a necessidade da experiência directa da deficiência, ou encontrar um pai transmutado pela experiência de ter um filho especial (e, claro, que não seja emocionalmente tacanho).

O Grupo de Apoio Emocional permitiu conjugar uma panóplia de pessoas e sensibilidades cujo ponto comum é a experiência da deficiência. Essa rede que se constrói, na presença dessas pessoas que falam e ouvem com os pre-conceitos fundamentais devidamente activados, é uma rede na qual as conversas podem fluir sem interrupções para explicação ou silêncios comprometedores. Deste modo, houve espaço para que as pessoas pudessem, respeitando os tempos umas das outras, expor a interioridade mais genuína e sedenta de  luz à apreciação intersubjectiva que, não raras vezes, acolhia estes interiores frágeis com os braços bem abertos e os cuidados necessários para que das experiências expostas florescessem comentários, apreciações e reforços que estruturavam todo o discurso subsequente.

Emocionamo-mos diversas vezes. Eu senti-me, amiúde, integrado. Compreendido. Enquanto me debatia, no chão da minha própria raiva – ainda não ultrapassei este quid com o mundo e a vida -, sentia que as pessoas que me rodeavam não estavam nem surpreendidas com o meu comportamento, nem desejosas que eu voltasse à frequência delas. Pelo contrário. Senti que cada uma delas tinha o braço estendido, pronto a levantar-me assim que eu quisesse aceitar a ajuda, e que estavam dispostas a esperar, com o braço disponível, que eu resolvesse a minha birra e que estivesse pronto para ser ajudado. Às vezes, a paciência e a disponibilidade fazem toda a diferença do mundo.

Aproveito para (re)recomendar esta experiência a quem possa dela usufruir. Acho que qualquer pai/mãe de uma criança deficiente precisa, em primeiro lugar, de expor publicamente, perante uma plateia preparada, as mágoas que não pode cultivar interiormente, ad infinitum, sob pena de desabar por debaixo das trepadeiras que lhe crescem à volta do corpo. Depois precisa de ouvir o discurso alheio e perceber como pode ajudar, ajudando-se, e fortalecer-se com a força dos outros. Estes grupos funcionam ao modo dos elos de uma corrente, em que o elo anterior e posterior são parte integrante da força com que o próprio resiste às agressões. O grupo é um catalisador de força e energia e permite que se receba tanto ou mais do que quanto se dá.

Aconselho a quem esteja interessado a estar atento à página dos paisemrede. Eu, por cá, vou pensando no segundo módulo.

4 Respostas to “GAE – Paisemrede, um balanço”

  1. Mina Viana Says:

    Gostei, da abordagem que fez às relações que se criam nessa partilha. Por vezes são um escape, para a parafernália de sentimentos que julgamos só nos ter…
    Falar a mesma linguagem, é tudo mais entendível…
    Parabéns pela iniciativa dos Pais em rede e pela participação dos pais, que um ombro amigo faz sempre falta..
    Com muita pena minha não participei, apesar do convite, mas a distancia não me permite…Congratulo-mo com a vossa troca de experiências…
    Um abraço, já agora extensivo a todos os participantes

    • Pai Says:

      Obrigado Mina, tenho sempre pena que estas iniciativas não abarquem a totalidade do território. Acho que seriam úteis para qualquer grupo de pais onde cada um procurasse estruturas de apoio e compreensão. Não deixe de consultar a página do paisemrede porque os grupos vão ser alargados a outras zonas do país.

      Beijinhos

  2. Ana Salgueiro Says:

    Ainda bem que foi uma experiência positiva.
    Espero que este GAE continue para além das paredes bem estruturadas das sessões. Se alguns pais conseguirem ser rede de suporte uns dos outros, na vida real, então, estas Oficinas terão atingido o seu objectivo mais profundo….

    • Pai Says:

      Temos continuado a corresponder-nos por email. E tem toda a razão quando diz que o mais importante destas iniciativas são as estruturas que ficam para lá do âmbito das sessões. As pessoas passam a contar com mais amigos, e amigos que percebem o substrato da dor que sentem. É mais fácil falar com os nossos semelhantes. Beijinhos.


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