.

Mudei-me

Saí de casa

Trouxe a gata e alguns livros

Não suportava a presença da tua ausência

O teu cheiro nas coisas

A tua cara espalhada pela sala

Como fragmentos afiados de um atentado

Não te disse nada

Porque nada havia a dizer

Trouxe uma camisola

Onde te enfiavas para passar a noite

Um trapo velho no qual mergulho o nariz

E me refaço da falta de ti

Não te deixei nada escrito

Porque a única coisa que mereces

É um silêncio bizantino que te esmague

Como a moldura frágil de um insecto

A imposição de um único e monumental silêncio

Que te sature a ondulação do riso ao choro

Com uma maçuda e perene expressão de indiferença

E se um dia deres por mim numa esplanada

A esgravatar com os olhos a justeza de uma rima

Numa arqueologia de toupeira que te desperta um sorriso

Não sei o que fiz da tua camisola

Onde me rendi com o mesmo vigor

À derrota e à masturbação

Devo tê-la usado para forrar uma caixa

Onde deixei morrer uma ninhada de gatos

Os miaus apagando-se como o refrear do trânsito

Enquanto eu

Estendido na cama

Procurava equilibrar a bebedeira

Que carrego desde que me deixaste.

Publicado em Divórcio. 2 Comments »

2 Respostas to “”

  1. ccf Says:

    Muito bonito, bem vindo de dentro.
    ~CC~


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: