Dia do pai em terra de miúdos

 

Fui ontem, a convite da Escola do Gui, a uma festinha de comemoração, póstuma, do dia do Pai. Assim que o Gui me viu não quis mais largar-me sob pretexto algum. Ele pode ser imensamente feliz na Escola, e não tenho dúvidas de que o será, porque quando lá vou encontro-o bem, especialmente quando está na sala de ensino estruturado da unidade, onde a disciplina estóica imposta pela educadoras refreia a hiperactividade de alguns e a desatenção congénita dos restantes, mas, ainda assim, o que o Gui arranjou para se sentir relativamente em casa e seguro na Escola foi, com a ajuda das educadoras e dos seus colegas, estratégias de integração. Ou seja, ele habitou-se a gostar de lá estar, sem nunca lhe podermos exigir – ou ele a ele próprio, para o efeito – que se sinta tão à vontade como as outras crianças, para as quais aquele mundo se foi desvelando em progressiva habituação e no qual se sentem tão integradas como em casa, numa rede complexa de interacções sociais para as quais o autismo tem pouca capacidade de resposta e de assimilação.

O Gui é, para os restantes miúdos normais da turma dele, uma espécie de mascote. É-lhes tão inofensivo quanto querido. Gostam de lhe fazer festinhas, de lhe darem beijinhos, de o sentarem no colo, de o pentearem, enfim, de fazer-lhe tudo quanto se faria a um nenuco com a enorme vantagem de o boneco em questão ter alguma vontade própria. Eles aceitam-no protegendo-o, porque sabem, instintivamente, que ele depende dos outros, mesmo que seja, a todos os títulos, incapaz de expressar objectivamente essa dependência. As crianças, que podem ser tão cruéis, também têm em si o instinto de preservar a os mais fracos, aqueles que a natureza semeia mais ou menos ao acaso mundo fora.

Vim-me embora a pensar em duas coisa muito particulares: estavam presentes mais mães que pais na festa, o que não deixa de ser revelador da nossa extrema incompetência enquanto progenitores em função (falo, naturalmente, dos pais, onde, também, muito naturalmente, me incluo, porque uma excepção só comprova a regra) e, na mesma altura em que decorria a festa do dia do pai acontecia, em simultâneo, a festa do dia da Árvore, e os miúdos cavavam buracos um pouco por todo o jardim, em grupinhos de meia dúzia, e até perceber que não eram destinados a enterrar-nos depois de nos engordarem a bolo de bolacha e fanta, senti que talvez o merecêssemos por ocuparmos o nosso tempo em merdas cujo sentido só resiste ao escrutínio porque somos selectivamente míopes.

Publicado em autismo, Ensino. 1 Comment »

Uma resposta to “Dia do pai em terra de miúdos”

  1. Noris Says:

    Conheço mães que, no dia do pai, não mandam os filhos à escola, precisamente para evitar os melindres da ausência. É por essas e outras que há escolas que festejam apenas o dia da família.
    Um abraço.


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