Queres ser meu amigo?

 

Antes de a mãe do Gui me ter posto um par inolvidável de patins em linha, despachando-me porta fora e obrigando-nos à desfiliação do Clube dos Juntos, Unidos ou Casados, a minha relação com o Gui estava a tornar-se, aos poucos, muito dolorosa. Por estar com ele todos os dias e ter metido na cabeça que eu estaria a falhar porque ele não evoluía como eu o desejava, o que eu via do Gui, essencialmente, era a coloração indesmentível do autismo sobre a qual aplicava, em pinceladas generosas, o verniz de tom falha. Este estado de coisas reforçava a minha culpa na proporção inversa com a qual minava a minha paciência. Resultado: o Gui era-me cada vez mais insuportável, porque não o conseguia perdoar pelas suas limitações, aceitá-las ou perdoar-me a mim próprio por ser uma pessoa normal, também eu com limitações, de entre as quais a dificuldade em aceitar um estado de coisas como definitivo por achar sempre que estou capacitado para mudar o que quer que seja. A minha baixa tolerância para a frustração ajudava a compor este precioso ramalhete melodramático no qual pai, mãe e filho assumiam os papéis de destroços a maior parte do tempo, ora incapazes de aguentar à superfície, ora incapazes de aspirar a mais que isso.

A distância amortece como uma almofada o embate com o autismo. Regenera a minha paciência, faz-me de mim uma pessoa mais capaz de ultrapassar as camadas superficiais e desagradáveis da entidade Gui para conseguir ligar-me a ele pelo olhar, pelo toque, pelo silêncio cúmplice numa viagem de carro onde a paisagem seja o repouso das meninas dos olhos dos meninos.  Na Quarta-feira passada ele deixou-se dormir no sofá, a segurar-me a mão e eu respirava com cuidado para não lhe sobressaltar o sono e não estilhaçar uma felicidade vítrea.

4 Respostas to “Queres ser meu amigo?”

  1. Noris Says:

    Pois é caro Pai. A distância faz com que se aproveite melhor os momentos juntos.
    Um abraço e feliz dia do Pai.

    • Helena Sabino Says:

      Posso-te dizer que o Joao começou a estabelecer uma verdadeira relação com o pai, depois do divórcio. Antes partilhavam o mesmo espaço,mas a distância era infinita. Agora o pouco tempo que passam juntos, aproveitam-no da melhor forma e com outro envolvimento. Ou seja, nem tudo é mau…

      • Pai Says:

        Eu sei que cumpri à risca o velho ditado popular segundo o qual só damos valor ao que o temos depois de o perder. Mas nem tudo é mau, tem razão. Beijinhos.

    • Pai Says:

      Obrigado Mrs_Noris, como sempre, é tão lúcida quanto gentil.


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