Se calhar eu também podia ter sido bom

 

Este fim-de-semana rumei ao Norte a convite de uma grande, grande amiga, em busca de um bocado de ninho onde pudesse secar-me da tempestade que tenho vindo a suportar num lombo cada vez mais dorido e enregelado.

No Sábado dei-lhe alguma ajuda com as tarefas domésticas e, para além de ter activado uma alergia pela qual desejei ser a personagem d'”o nariz”, de Gogol, dei-me conta que as coisas da casa, especificamente domésticas, trazem à superfície os destroços do lar que normalmente, nos dias bons, consigo tresver por miopia selectiva.

Com o filho dela, de dez anos, embarquei numa conversa sobre a metafísica do futebol moderno e dei por mim a explicar-lhe quem tinha sido o Higuita, o que era a famosa defesa escorpião e porque o Benfica era incomparavelmente superior ao Porto, registo sobre o qual acabámos por concordar que nunca concordaríamos. Ter ao meu lado uma criança parladora e curiosa trouxe à luz o que há de melhor em mim no que concerne a paciência virtuosa de ensinar. Seria capaz de ter esmiuçado, por dias a fio, a ontologia do esférico ou a ergonomia mais conveniente para poder jogar playstation portable o maior período de tempo ininterrupto. Por via da função “pai”, que normalmente opera, com o Gui, num registo de silêncios e compromissos afectivos subtis, dei por mim a ter, reflexivamente, vontade de estar tempos infindos a apontar, num globo terrestre tal qual como eu tinha um aos dez anos, as fronteiras geométricas de uma África traçada a régua e esquadro e explicar-lhe, para que ele hoje o percebesse daqui a dez ou quinze anos, a importância do momento Facebook que varre de Gaza a Rabat uma concepção de história demasiado coxa para chegar a horas ao comboio do futuro.

Podia ter sido um bom pai para uma criança que me fizesse perguntas.

Publicado em autismo. 6 Comments »

6 Respostas to “Se calhar eu também podia ter sido bom”

  1. inês Says:

    o teu jeito bonito de falares das coisas enche-me de um aperto-feliz no peito. .. e o gui tem muita sorte de ter-te. eu sou outra felizarda. só não sei se te perdoo teres-lhe apresentado o higuita❤❤

  2. rosario filgueira Says:

    os SES

    • Pai Says:

      Os ses fazem tanto parto de mim como os sim e os não. Uns são chão, outros são céu e outro são a linha do horizonte e todos são necessários.

  3. Ana Salgueiro Says:

    O que é isso de ser bom pai? É-o certamente aquele que se deita ao lado do filho e lhe dá a mão para ele adormecer, que se preocupa infinitamente para saber mais acerca da condição dele, que fica triste porque não o pode acompanhar todos os dias… Eu acredito que vão haver conversas entre si e o Gui num futuro próximo. Mas entretanto há que dar espaço às conversas que não são verbais e que acontecem sempre que estão juntos. Do ponto de vista técnico podia dizer umas coisas mas limito-me a perguntar se tem falado com frequência com a terapeuta da fala do Gui e lhe tem posto as suas duvidas e inquietações em relação à comunicação verbal. Beijinhos

    • Pai Says:

      Cara Ana, eu acho que, por ora, não podemos pedir mais do Gui do que aquilo que ele tem dado porque ele não pode – essa é minha opinião, tão pessoal como incerta – dar mais. Essa é a realidade e, mesmo contra a minha vontade, tão a força da existência com ela. Se num futuro conseguir falar com ele, vou ser certamente uma pessoa muito mais feliz. Ou pelo menos muito mais leve.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: