Anatomia de um desfecho emotivo

 

É um título quase adequado para um (mau) livro de poesia mas serve outro propósito, o de explicar uma epifania que tive enquanto tentava sacudir da cabeça uma ideia obsessiva, usando da velha técnica que consiste em tentar descortinar matizes de branco numa parede branca (toda a gente sabe que só por preguiça do ponto de vista o branco aparece como uniforme, diz-se inclusivamente que os esquimós ou os povos do círculo ártico são meninos para distinguir dezasseis tonalidades de branco, o que me parece tão prodigioso como aborrecido).

No que concerne a visão propriamente dita, versa o seguinte: o final de uma relação segue os mesmos trâmites que um desastre de automóvel.

Em primeiro lugar, há o choque propriamente dito, o não, o deixei de te amar, o já não funcionámos, o não quero mais estar contigo e todas e quaisquer declinações, mais ou menos piedosas, mais ou menos cruéis, de não. A isto corresponde, na versão crash, o embate, a realidade vestida de Renault Clio a desrespeitar a passadeira ou o semáforo: uma explosão repentina percorre o corpo e aquilo que vem a seguir não é dor propriamente, mas uma espécie de espasmo neurológico, um influxo de neurotransmissores que transformam o cérebro e vias circundantes associadas numa IC19 em hora de ponta cheia de condutores bêbedos apressados em fazer entregas. A dor, presa no engarrafamento, ainda não chegou ao cérebro e há uma tendência de se pensar que afinal está tudo bem, que somos rijos e másculos até no colher involuntário de um Clio enfurecido e que tudo não passou de susto com projecção horizontal.

Quando os neurotransmissores da dor chegam ao cérebro, ultrapassando pela direita tudo o que não é indispensável e urgente, o corpo estremece numa urgência de respostas e os olhos acabam por repousar, incrédulos, sobre a tíbia exposta numa amálgama de carne e sangue golfado que já fez cair duas velhinhas sensíveis às mudanças repentinas de tensão e que, com sorte, acaba por ser suficiente para o próprio desmaiar.

Acordar do embate implica estar receptivo a um mundo de sofrimento que tem como parente próximo conceptual qualquer coisas como um dos círculos do inferno de Dante. Não há analgésico suficientemente forte para conter a torrente de microsensações que se aglutinam à volta daquilo a que vulgarmente chamamos dor, quando entalamos o dedo no armário de cozinha e que, neste caso, tem tanto a ver com entalar o dedo na mobília como uma aspirina pode ter a ver com uma linha de coca. É assombroso que a sensação, por si, não nos mate ou que consigamos desviar a atenção dela um segundo que seja. A dor é Deus: omnipresente, omnipotente e omnisciente de cada poro da pele, de cada capilar sanguíneo, de cada célula óssea.

Os meses seguintes são de fisioterapia, de reabilitação, de reconstrução de tudo quanto foi afectado no embate. A vida começa lentamente a adquirir,consoante a força de vontade e a capacidade de regeneração, um sentido. Não é o sentido pré-embate, porque esse está perdido para sempre, ficou ao pé do carro, moribundo, e alguém se esqueceu de o embarcar na ambulância, de pô-lo a soro, de reabilitar-lhe o coração avesso ao esforço. Nesta altura está-se melhor que imediatamente a seguir do embate e pior do que imediatamente antes. É um limbo existencial onde os sentidos concorrem para ocupar o lugar de condutor do que será o resto das nossas vidas. Reflecte-se como se o cérebro fosse um órgão alugado a ser devolvido num futuro próximo.

Quando nos esquecemos de coxear, muitos anos depois, ou quando nos habituámos a coxear como se o houvéssemos feito toda uma vida, aparecem, na mudança de estação, algumas dores que sabemos serem memórias de um destroço. Na verdade nunca recuperamos, fazemos apenas aquilo que fazemos melhor quando pressionados: adaptamo-nos e sobrevivemos, como bons filhos bastardos de Darwin que somos e cada um carrega em si o destino de toda uma espécie por ser irrepetível em qualquer dos restantes membros desta peculiar manada.

Publicado em Divórcio. 6 Comments »

6 Respostas to “Anatomia de um desfecho emotivo”

  1. Noris Says:

    Eu vivi o divórcio sem grandes dramas ou emoções. Nem mágoas, nem rancor. No final do processo, finalmente aquela sensação de liberdade que ansiava desde o dia em que tive consciência de que o amor tinha acabado, de que as coisas já não funcionavam. Torço para que ele encontre alguém que o faça feliz, desejo que o pai do meu filho mantenha uma estrutura mental saudável.
    Um abraço.

    • Pai Says:

      Fico feliz – e algo invejoso :p – de saber que nem todas as pessoas têm de passar por isto como se fosse um embate. No meu caso, como se tem depreendido pelos posts que tenho escrito sobre o assunto, não tem sido bem assim, ou melhor, tem sido o contrário do que enunciou no seu comentário. Se me permite, como tem feito a sua vida com o seu filho sozinha (presumindo que o está), tem sido difícil?
      Beijinhos.

  2. Noris Says:

    Caro Pai,
    Nas questões que têm a ver com o meu filho, nunca estive sozinha. Mantenho com o pai uma relação “profissional”. Por exemplo, já fomos os três ao hospital porque o rapaz estava doente, fomos às vacinas porque o pai tem mais coragem, já aconteceu de estarmos juntos nas festas da escola, etc. O pai também o ajuda nos trabalhos de casa sempre que o vai buscar à escola, e isto acontece duas a três vezes por semana, dependendo da disponibilidade. Basta telefonar para combinar, o pai pode ver e estar com o filho sempre que entender. Moramos a poucos metros um do outro. De tal forma que quando estamos fora da ilha é ele quem toma conta dos animais (lago com tartarugas, cadela com 13 anos e gata) e das plantas.
    Depois ainda tenho os meus pais que vivem em casa contígua à minha e uma empregada 3x por semana. Pai e filho ainda ficam juntos ao sábado ou ao domingo. A única diferença é que achámos melhor que dormisse sempre no seu quarto, portanto, na casa da mãe.
    Um abraço.

  3. Ana Salgueiro Says:

    Caro Pai,
    Achei a sua metáfora um mimo. Muitos Parabéns! De qualquer forma gostava de lhe dizer que a vossa separação ainda tem muito pouco tempo… O primeiro ano é o ano de todos os embates! Mas, depois, com bom senso, e pensando sempre que os filhos – que não nos pediram para nascer – são o que mais interessa, conseguem-se proezas como passar em conjunto festas como o Natal, os aniversários, a Pascoa etc…e, até, ter sentimentos positivos pelo/a outro/a que ocupa agora o lugar que já foi nosso. Mas ás vezes vem-nos à memória a dor, é verdade!

    • Pai Says:

      Cara Ana,

      Ainda estou longe, longe da fase na qual “outra pessoa a ocupar o meu lugar” é, sequer, concebível. Dê-me uns anos para pensar nisso e outros tantos para aceitá-lo e talvez aos oitenta e muitos a ideia me seja tão suportável como a presença.
      Beijinhos.


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