Estamos condenados a falar sempre da mesma coisa?

 

Ontem fui ao cinema com um amigo meu, também pai de um miúdo autista, tão irrequieto como simpático, ver o Black Swan (a estatueta para melhor actriz estará reservada para a magnífica Natalie Portman) e à saída, em jeito de até logo, voltámos a um assunto que parece contaminar todas as conversas entre pais de crianças autistas e que versa, muito naturalmente, o autismo.

Para o meu amigo P. o facto de isso acontecer, i.e., de todas as conversas desaguarem no Rio Grande do autismo, é um mal, uma espécie de vício que limita, de certa forma, até os momentos de lazer. É como se o autismo, para além de avidamente tingir casa, familiares e amigos chegados, também se imiscuísse, sem que sobre isso tivéssemos grande controlo, numa ida ao cinema, porque para dois pais de crianças autistas é impossível, aparentemente, passarem algum tempo juntos sem falarem nisso. Para o P., devíamos ser capazes – e seria mais saudável – encontrarmo-nos para falar de carros, bola ou beber uma cerveja ou isso tudo ao mesmo tempo. O meu amigo P. tem boas razões para dizer o que diz, mas discordo, educadamente, dele (não vá o diabo tecê-las, o gajo é grande e eu nem por isso).

Para mim é muito compensador (e dou já de barato que isso possa ter a ver com a minha pouca exposição ao acontecimento) encontrar alguém que partilha de um problema tão complexo e profundo que toda e qualquer linguagem parece ser insuficiente para comparti-lo de forma adequada com alguém que esteja do outro lado da cerca. Este blog é um exemplo disso; aqueloutros que apelido de siameses, idem. Eu tenho um problema na minha vida que exige uma determinada forma de compreensão, uma estrutura conceptual moldada, infelizmente, pelo acontecimento do autismo e gosto da ideia de haver mais pessoas que possuem uma chave semelhante pela qual podem perceber a minha desesperança ou a minha capacidade de, no limite do absurdo, acreditar em milagres. Não quero com isto dizer que dois pais de autistas não possam falar de bola como pretende o P., pelo contrário, acho que devem falar de tudo quanto lhes passe pela cabeça e que lhes seja aprazível com a vantagem, para mim incomensurável, de poderem voltar ao assunto espinhoso sem receio de serem incompreendidos ou recriminados. É como se as conversas entre pais de autistas fossem tidas sobre o uma rede de segurança confortável, à qual podem sempre recorrer sem precisarem lhe verificarem continuamente a existência ou de se desculparem.

Publicado em autismo. 2 Comments »

2 Respostas to “Estamos condenados a falar sempre da mesma coisa?”

  1. Pedro Says:

    Parabens, escreves de uma forma incrivel.
    Concordo,amigos devem falar de bola, gajas, carros, filmes, literatura e até de autismo..

    Um abraço

    • Pai Says:

      Grande P.!😉 , obrigado pelo elogio. Ainda hei-de fazer vida de escrever, até por ser a única actividade profissional da qual eu realmente gosto.
      Ainda ando a digerir o filme. Da próxima vez vamos ver qq coisa mais tiros e gajos sebosos com mau feitio.
      Abraço.


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