3. E depois, who cares?

 

As mães, os pais, os amigos, a família mais chegada e a mais distante, todos se manifestam em pequenos gestos que mimetizam a insegurança dos funerais e achegam-se a mim como se eu fosse portador de um doença contagiosa sob a forma de luto, maleita com o qual todos simpatizam, em maior ou menor grau, mas de quem toda a gente espera escapar, ora por imunidade adquirida, ora por afastamento da fonte de contágio. Eu sinto-me a deslizar (porque perdi a realidade do chão nesta últimas semanas e não sei o que é a firmeza do andar) nas festas dos miúdos e nos aniversários e todos olham para mim como se vissem o anúncio de uma caveira onde eu só vejo os papos das olheiras que teimam em engordar numa fúria de insónias e eu quedo-me parado, a cumprimentar as pessoas, as famílias, os amigos, com a esperança de que alguém consiga ver o homem encarquilhado debaixo do cadáver abaixo do qual ninguém, aparentemente, consegue fixar a vista.

Publicado em autismo. 3 Comments »

3 Respostas to “3. E depois, who cares?”

  1. Noris Says:

    You care! Take care.

  2. ines Says:

    escreves tão bem pah. eu vejo-te


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