paralelo assimétrico

 

Tenho meia dúzia de voluntariosos, barulhentos e cantaroladores rapazes de montagens do Ikea a fazerem um face lifting do escritório porque amanhã, pela manhã, temos uma visita da casa-mãe, nada menos que o CEO da multinacional onde trabalho e, noblesse oblige, antecipámos duas semanas a modernização prevista para as nossas instalações para o receber na nossa melhor roupagem.

Descobri que não consigo trabalhar assim. Não me consigo concentrar-me com este corrupio de gente a levantar, baixar, pregar, martelar, montar e desmontar coisas. Fico a olhar para eles como se houvesse emborcado um caixa de Lendormin’s ou fosse parvo ou moderadamente ambos. Às vezes tenho a sensação que o Guilherme fica com a mesma expressão por motivos aparentemente muito mais suportáveis, como supermercados, centros comerciais e festinhas de amigos. Se calhar, a minha capacidade de integração e processamento tem a sua fasquia entre o silêncio absoluto de John Cage e a algazarra que a rapaziada do Ikea de ferramenta em punho é capaz de produzir a escavacar uma sala; para ele, porventura, os limites superiores terão valores muito abaixo dos meus e duas senhoras de idade a escolherem fruta é o suficiente para que ele ignore os meus chamados.

A nossa naturalidade com as coisas é de uma espantosa amnésia de aquisição. Esquecemo-nos das diferenças para com os demais até que elas sejam insuportavelmente óbvias e, mesmo chegados ao ponto de reconhecê-las, reduzimo-las à incompreensível estranheza do outro. Tudo quanto seja necessário para protegermos o conforto da naturalidade normativa do nosso ponto de vista.

Publicado em autismo. 2 Comments »

2 Respostas to “paralelo assimétrico”

  1. Noris Says:

    Mas alguém suporta isso? Onde entram esses trabalhadores, eu saio. Ainda ontem os senhores do ar condicionado vieram esburacar as paredes, peguei nas minhas coisas e mudei logo de sala. Outra coisa que me custa tolerar são ambientes abafados a cheirar a gente. Avalio sempre antes de entrar num elevador. Manias.

    • Pai Says:

      Eu pensava ser bastante tolerante com os ruídos. Descobri que tinha um limite de tolerância, ora alcançado pela hora, ou pelo cansaço ou pela conjunção multifactorial de tudo isso mais as marteladas. A minha sugestão no texto é que o limite do Gui, a partir do qual ele deixa de prestar atenção, pode situar-se bastante abaixo do meu (ou das restantes pessoas normosensoriais) e não o percebermos porque estamos viciados na realidade ( se isto não faz confusão a ninguém, porque lhe faria a ele? ).


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