blogshake

 

Inevitavelmente, o divórcio pelo qual estou a passar afecta a minha relação com o Gui. Já agora, sem quaisquer pretensões hiperbólicas, com o mundo. Este cantinho que normalmente versa o tema do autismo e as suas múltiplas declinações na pessoa do meu mui estimado crianço vê-se agora e durante um período indefinido sob o espectro da concorrência tenaz da separação. É, como diz o título, um blogshake, tematicamente falando.

Há pouco tempo um médico amigo dizia-me que a taxa de separações no universo dos pais com crianças multideficientes era largamente superior àquela observada entre os casais com os purgatórios normais do dia-a-dia (o facto de este meu amigo ser psiquiatra era autoridade suficiente para, à primeira, aceitar como letra de lei a opinião dada). Quando googlei o assunto deparei-me com um estudo recente que, aparentemente munido de uma boa amostragem e de bagagem conceptual adequada, demonstrava, afinal, que os pais de crianças neurotípicas e neuroatípicas separavam-se na mesma proporção. A minha experiência pessoal (o universo das pessoas que conheço e do qual posso extrair um ratio separado/não-separado) inclina-me a concordar mais com o estudo recente do que com a assumpção generalizada e com trejeitos de mito urbano segundo a qual os filhos multideficientes são um atestado de óbito à saúde do casal. Não me parece ser assim. Conheço imenso casais que continuam juntos, a caminhar sobre o braseiro do autismo de mãos mais ou menos dadas, e conheço pessoas que não resistiram às agruras de uma companhia indesejada e/ou indesejável.

Entrando agora no território da pura possibilidade, do als ob (do “como se”), tal qual dizem os filósofos alemães do alto das suas coqueteries intelectuais (mais quem os cita) a verdade é que a minha relação, e isto sinto-o, não houvesse Gui ou não houvesse autismo, teria assumido contornos inteiramente diversos e talvez não acabasse agora, nove anos depois, abruptamente, como um terramoto de epicentro desconhecido e réplicas imprevistas. Por outra parte, não existisse Gui e talvez não tivesse (re)começado, há oito anos, sob o auspício de um filho inesperado que pôs termo à casmurrice pós-púbere de dois projectos de adulto que não conseguiam estender as mãos por estarem tolhidos pelas cãibras do orgulho.

Passo os dias a contemplar esta ferida aberta não à espera que ela cicatrize, como é natural que o faça sob o efeito do tempo, mas que ela desapareça e que no seu sumir-se brusco eu possa outra vez por a chave à porta, entrar, e encontrar as coisas onde as deixei e o coração na mesa-de-cabeceira, ansioso por voltar ao peito.

Publicado em autismo. 8 Comments »

8 Respostas to “blogshake”

  1. ISABEL SANTOS Says:

    FICO GRATA PELO SEU PEDIDO,EMBORA POR POSTS ANTIGOS JÁ TENHA SEGUIDO O SEU BLOGUE SÓ QUE NESTE MOMENTO ESTÁ COM OUTRO ROSTO.
    EU SOU A AVÓ DO JOÃO DIOGO E NESTE MOMENTO POUCO ESCREVO SOBRE ELE,PELAS RAZÕES QUE JÁ PERCEBEU,DIVÓRCIO.
    NO ENTANTO VOU POSTANDO VÁRIOS ARTIGOS SOBRE O AUTISMO E ASSIM TROCAR INFORMAÇÕES COM PAIS QUE ME VÃO CONTANDO AS SUAS EXPERIÊNCIAS.
    QUANTO AO JOÃO POSTAREI AS NOVIDADES QUE O PAI AUTORIZAR,UMA VEZ QUE ELE NÃO SENTE A NECESSIDADE DE EXPOR O FILHO E SIM TRABALHAR COM O FILHO.
    COMO SEGUE O BLOG DA MÃE DO JOÃO,ENCONTRARÁ AÍ BASTANTE INFORMAÇÃO.
    TUDO DE BOM PARA SI E PARA O GUI

  2. Pai Says:

    Obrigado Isabel, desejo-lhe igualmente tudo de bom. Só com a sua mensagem percebi que havia dois blogues sobre o mesmo João Diogo. Aguardo que o caminho, mesmo que lento, seja sempre a subir. Beijinhos.

  3. Noris Says:

    Também já li sobre esse estudo. Não creio que um filho venha separar ou unir o casal. Mito.
    Abraço

    • Pai Says:

      Estou de acordo. Mas também tenho a certeza que o autismo, não sendo o costas-largas que abarque com todas as culpas, tem a sua quota parte na infelicidade que vai servindo aos pais das crianças. E em afectando os pais, afecta a relação. And so on.

  4. Maria Bernardes Says:

    Boa Tarde,

    há 9 anos também passei por um divorsio, com 2 filhos, um PHDA e outro Asperger, na altura 9 e 4 anos.
    A única coisa que tenho como certa é que de facto não é um conto de fadas, é difícil e requereu/requer “130%” de mim.

    Maria João

    • Pai Says:

      Olá Maria João. Não costuma ir à APPDA? Não acho que a conheça mas a sua história é-me familiar.

      • Maria Bernardes Says:

        Ainda nunca fui, vou agora Ao workshop do CADIN dia 26.
        Tenho todos os sabados ocupados devido á terapia do meu filho no Cadin. A minha história infelizmente deve ser igual a muitas outras.

  5. Pai Says:

    Cara Maria, o Cadin deve ser dos poucos sítios onde ainda não fui. Desculpe tê-la tomado por outra pessoa. Conheço, de ouvir falar, alguém com uma história (superficialmente falando) muito semelhante à sua.
    Beijinhos e que tenha sempre força para não ir abaixo.


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