A vantagem de ter menos

 

Desde que saí de casa vejo o meu filho somente aos fins-de-semana. Tenho vindo a descobrir, gradualmente, que esta distância não é necessariamente má, se bem que não tenha para mim a certeza de querer esta situação como solução definitiva (e mais interessante ainda é não ter quaisquer certezas de isso – a reversibilidade da estado actual  das coisas – estar nas minhas mãos).

A tese é a seguinte: se não passo a semana com ele, a ter presente em todo o seu esplendor obsessivo, assim que ponho pé em casa , as estereotipias e demais peculiaridades que fazem do Gui uma criatura tão adorável como rígida, a minha tolerância aumenta no mesmo grau da saudade e da vontade de voltar a estar com ele. Como no post anterior, parece haver um ponto de equilíbrio desejável entre o montinho e o monte e quando a ele chego, por meio da ausência, sou capaz de tolerar melhor as frustrações (que são inteiramente minhas e o Gui unicamente o ponto de aplicação especular deste espelho convexo onde tudo é reflectido com radical crueza) e de aproveitar os filamentos de relação de onde, por vezes, naturalmente, brotam, em simultâneo, os sorrisos tão recompensadores como moralizantes: a vida parece adquirir, num nicho minúsculo de espaço e de tempo, sentido e, se pudesse e soubesse, guardava cada um desses momentos numa moldura onde pudesse a eles voltar numa nostalgia de veludo.

A pergunta a fazer: sou capaz de tolerar mais? De subir a fasquia (por meio de terapias, de treino, de condicionamentos diversos, de ioga, de sei lá que diabo a quatro de método a experimentar) e conseguir, ainda assim, manter os resultados expectáveis no outro prato da balança? Ou, pelo contrário, a exposição ao Gui numa extensão cada vez maior de tempo acaba por transformar a função linear com tendência a +infinito numa curva de cariz sinusoidal que tem um limite a partir do qual mais é menos?

Esta é pergunta adequada antes sequer de pensar na possibilidade de pedir para ter mais tempo.

 

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