Quota parte

Não sou uma pessoal fácil, para começar a conversa. Suponho que aquilo que queremos dizer por facilidade corresponda, grosso modo, à adaptabilidade que demonstramos ter – ou não – à opinião alheia, ou, mais concretamente, à opinião alheia que nos obriga a mudar comportamentos ou atitudes que, por hábito e comodismo, passámos a ver como nossos e passíveis de nos constituírem como indivíduos determinados e originais, como se o monge de nós-próprios fosse unicamente o hábito que ensaca como um rodilho a pele inexpressiva.

Nesse sentido não sou fácil: custam-me as mudanças (selectivamente), tenho mau jogo de cintura para aparar a crítica e desconfio sempre de qualquer câmbio de habito por achar que acabará por amputar-me qualitativamente de uma fatia gorda de identidade, que quero, a todo o custo, preservar (e isto sublima com devida decência a beleza trágica do neurótico: concebe toda e qualquer mudança como uma tragédia às migalhas, mesmo que seja a criatura mais infeliz do mundo – porque essa infelicidade, essa porra de tristeza perene, é dele, inteiramente dele, enquanto que a mudança tem o fedor de uma vontade alheia, torpe, egoísta e maldosa).

Ser assim tem custos. Este comportamento, entre outras variáveis de maior ou menor facilidade de quantificação, contribuiu para que perdesse a minha mulher. Que ela me deixasse, por outras palavras. As reticências que colocamos às mudanças, numa inglória fúria de Sísifos, são tão espúrias como ineficazes: ou mudámos porque queremos ou mudamos de qualquer forma, porque, como dizia Heraclito no pico da filosofia helénica “não é possível banharmo-nos duas vezes no mesmo rio” e a vida, num sentido de GPS bíblico, inclina a plataforma de jogo independentemente da vontade dos jogadores.

Terei eu doado esta parte de material genético ao meu filho? Terá a mãe dele contribuído com outro tanto? Será o autismo um resultado de gerações de decantação dos mais diversos sintomas que, isolados, produzem pessoas estranhamente normais e que, somados, misturados, confluídos, produzem pessoas normalmente estranhas?

Platão dizia, com propriedade, “quando é que um montinho passa a ser um monte”? Não há fronteiras objectivamente definíveis. Assim será com o autismo: uma colecção de antecedentes familiares subtis a que se soma as naturais agressões de um mundo altamente industrializado. Haverá raízes e quem for hábil saberá traçar-lhes o curso. Talvez um dia seja uma disciplina autónoma. Genética retroactiva.

Publicado em autismo. 2 Comments »

2 Respostas to “Quota parte”

  1. Noris Says:

    Até os seus textos mais tristes são bonitos. Só lamento que não sejam apenas textos literários.
    Não há dúvida. O autismo, em monte ou montinho, tem raízes.
    Beijinhos.

    • Pai Says:

      Obrigado Mrs_Noris. O semi-anonimato que esta casa me proporciona permite-me explorar com acuidade redobrada o que me vai cá dentro. E expô-lo. Porque sei que do outro lado haverá sempre alguém cuja empatia impede o riso ou a pena. Beijinhos.


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