O tempo adequado

Há poucas coisas que o meu catraio goste mais do que ver desenhos animados na televisão. Já disto falei aqui, em tempos idos de 2008 e o facto de estar, novamente, a trazê-lo à superfície na forma de um post quererá dizer, antes de mais, que o comportamento dele não se tem alterado.

Ora o Gui vê desenhos animados como uma adolescente sobre-hormonada veria um vídeo de exercícios da Jane Fonda: levanta-se, salta, rodopia, aproxima-se e afasta-se da televisão consoante a acção decorre, chora (quando os intervenientes se desentendem) e ri (quando o Pocoyo desata aos pinotes de sorriso estampado na cara). Ao contrário das crianças normais, cujo visionamento do filme decorre num plano de fundo de um cérebro esforçando-se por integrar imagens e estruturas narrativas sem recurso ao corpo, no Gui a capacidade de integração do que está a acontecer tem uma componente corporal muito vincada. Dir-se-ia que ele “sente”, literalmente, como se o corpo dele fosse uma caixa de ressonância de um mundo a decorrer, a cores, na esquadria limitada da televisão, e ele se visse impedido de processar a narrativa no plano que lhe é adequado, a saber, no plano em que várias abstracções decorrentes da decantação das personagens e da sequência de acções produzem qualquer coisa como uma sinopse, um resumo do filme, uma moral da história que alimenta os alicerces fundacionais daquilo que, mais tarde e pomposamente, se chamará de educação.

Como o Gui é muito mais corpo e caixa de ressonância imediata que propriamente cabeça e capacidade de abstracção, também é, por inerência lógica, muito mais presente, i.e., vive muito mais no imediato do que qualquer um de nós, cuja capacidade de abstracção nos permite fugir ao instante para recuperar um passado, antecipar um futuro e fazer coisas como um resumo, uma sinopse, um apanhado da história. Para o Gui não há história: há uma sequência de planos onde acontecem coisas, que desunidas da coesão narrativa que só a abstracção pode formular, têm o seu sentido no instante em que acontecem (por isso ele chora com coisas que parecem tristes e não o são, porque para saber que não o são teria de ter integrado uma sequência de acontecimentos que contextualizam a aparente tristeza da cena num plano mais vasto de sentido onde ela, de todo, não é triste).

Às vezes penso que deveria deixá-lo ver mais desenhos do que aqueles que deixo porque é das poucas coisas que ele faz com genuíno prazer e que nos pede com frequência suíça. Tento agir como um pai cauteloso e impor-lhe regras de tempo de visionamento. Porque continuo a achar, porventura popularochamente, que tudo o que é demais não presta. Mas se lhe desligo a televisão e o deixo “à solta” pela casa, ele não tem interesses que lhe permitam desenvolver, autonomamente qualquer outra actividade e não é infrequente que se refugie no quarto, na cama, para meter os dedos na boca ou cumprir qualquer outra estereotipia difícil de digerir. A solução é tirá-lo de casa, o que no nosso país é possível de Maio a Outubro e vai deixando de ser confortável no Inverno. Ir aos parques infantis e vê-lo andar de baloiço. Ou seja, programar actividades em que, invariavelmente, não podemos eximir-nos da atenção contínua que lhe temos que prestar.

Às vezes penso que deixá-lo ver mais ou menos televisão tem mais a ver com o que nós idealizamos ser uma educação, mesmo com todas as especificidades desta educação, do que propriamente com o que está certo ou errado. Hoje é Segunda-feira e fez ninho a incerteza.

Publicado em autismo. 2 Comments »

2 Respostas to “O tempo adequado”

  1. Noris Says:

    Caro pai,
    Em primeiro lugar felicito-o pela qualidade do post e por conseguir expressar tão bem o sentir do seu filho.
    O meu rapaz, na idade do Gui, adorava o Pocoyo e todas as séries do Panda. Agora vê as séries para adolescentes do Nickelodeon.
    O mal, cá em casa, são os vídeo-jogos. Domina o comando melhor que um adulto, joga como um profissional, o problema é quando, após meia dúzia de tentativas, não consegue passar um nível, ou parte dum nível. É aí que começam os acessos de fúria, ataques de choro, respiração ofegante, enerva-se, esperneia, grita, zanga-se com Jesus, diz que Ele não existe. Até assusta vê-lo crescer assim.
    Quando não está nos jogos, distrai-se a brincar sozinho pela casa, e aqui não aceita parceiros. Pega em dois dos seus bonecos e recria, por exemplo, o jogo do Supermário, reproduzindo, com a voz, e de si para si, todas as falas e sons do jogo. Se é certo ou errado, educativo ou não, deixá-lo, só, nestes momentos de autismo, não sei, mas sinto que precisa deles para descontrair. É quando fica mais calmo.
    Brincadeiras que requeiram interacção, como jogar à bola num ambiente mais descontraído, ou um jogo de tabuleiro para dois jogadores, desgastam-no imenso. Empolga-se demasiado e, enquanto joga, fala alto, sem nunca se calar. Não há um segundo de silêncio, fala apenas para ocupar espaço. E acaba sempre por se zangar com o adversário, ou com o parceiro. Sempre.
    Ambientes informais, ou de alguma descontracção, são tóxicos para ele, desorganiza-se facilmente. Consegue fazer boa figura em ambientes bem estruturados onde impera o regime militar, como no Judo, onde está inscrito há cerca de um mês.
    Já me alonguei, só a falar de nós.
    Um abraço

    • Pai Says:

      Cara Mrs_Noris,

      A sua resposta é perfeita, na forma e no conteúdo. Se eu acaso tivesse lançado um desafio do tipo “digam-me lá o que nos vossos filhos vos traz dificuldade, no dia-a-dia”, para que os restantes pais (de crianças típicas) conseguissem perceber o outro mundo para lá do espelho, diria que tanto o meu post como o seu comentário lá figurariam. Obrigado por partilhar isto connosco. Beijinhos.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: