(re)leituras

Como todo o nostálgico como deve ser, passei os últimos dias a olhar-me ao espelho das coisas que escrevi há uns três ano atrás e a imaginar-me muito mais feliz nessa altura.

Um registo para o autismo que equaciono em duas variáveis com influência recíproca: por um lado, a esperança que temos nas múltiplas possibilidades que a juventude (e quanto mais jovem mais possibilidades há, numa proporcionalidade directa) oferece, mesmo para crianças como o Gui; por outra parte, a intensidade com que nos oferecemos às terapias e como nelas investimos, num arrojo de iniciados, confiantes que estas duas componentes – mais alguma sorte e uma pitada de bom karma – sejam o suficiente para que, num esforço de halterofilista, consigamos reerguer o edifício Guilherme numa esplendorosa recuperação arquitectónica que nos devolva, em justa inteireza, o filho perdido na sala do diagnóstico.

Infelizmente, autismos há muitos, e se uns recuperam melhor – até perder, no caminho da vida, os rótulos com os quais andaram meia infância – outros há, como o Guilherme, que tardam muito mais tempo a subir os degraus que nós próprios já havíamos esquecido que existiam: o comer com talheres, o despir, o vestir, o deixar a fralda, o apontar, o falar. Infelizmente, isto faz-se tudo, ainda, no gerúndio, vai-se fazendo.

E aí entra a terceira variável da equação autismo que pode fazer a diferença e operar o contrapeso necessário para que alguma esperança possa passar incólume à marcha do tempo: a aceitação. A aceitação que não consigo ter sem haver decidido, finalmente, prover-me da muleta da psicoterapia para que eu próprio me consiga reinventar arquitectonicamente, a bem do Guilherme, a bem de mim e dele e de um futuro que não pode ficar refém do passado e da sua alcova, triste mas confortável.

Publicado em autismo. 4 Comments »

4 Respostas to “(re)leituras”

  1. rosario filgueira Says:

    ou entao simplificando a coisa: aceitar . ( e ler-se o ponto final. Sou muito pao pao – queijo queijo, desculpe )

    Vou lhe falar do meu 1º menino: MOISES – paralesia cerebral ( um parto complicado ) esta num centro (ex-orfanato) ligado a um respirador artificial.

    Pode dizer me de tudo – se o faz sentir melhor … mas os factos nao mudam…
    por sorte ou por desgraça as crianças com trisoma 21 tendem a diminuir (diagnostico precoce=aborto) mas autismo, asperger, esquizofrenia, defice de atençao e mil outras variantes… aumentam…

    O abandono das crianças “normais” é vulgar e se falamos de crianças com multi problemas….

    • Pai Says:

      Não, os facto não mudam, mas isso não é um problema, os factos nunca são um problema. O problema são as interpretações. E nesse capítulo eu tenho tido dificuldades, para ser generoso.

  2. Noris Says:

    Não costumo reler os meus posts antigos. É como se o passado se fosse fechando, como se só existisse presente e futuro. Também não reconheço, perante terceiros, que o meu filho tenha Asperger.
    Reconheço, sim, que é um pouco ansioso, excêntrico, que às vezes tem mau feitio, não sabe perder, que é inteligente, curioso e falador. Ou seja, aceito o diagnóstico, mas é algo de mim para mim, não assumo.
    Até porque concebo a teoria de que há casos não diagnosticados, casos sem qualquer tipo de intervenção ou terapias, e que ainda assim a vida não lhes correu mal.
    Autismos há muitos, como diz.
    Desejo-lhe um bom retorno à blogosfera.

    • Pai Says:

      Cara Mrs_Noris, o meu filho é demasiado excêntrico para passar por excêntrico, é uma criança de sete anos que não fala e que tem comportamentos ao lado dos esperados. Durante muito tempo encontrava gente na rua que, não me pedindo respostas pelo comportamento e silêncio do meu filho, ficavam à espera, de soslaio, que eu lhes dissesse qualquer coisa que providenciasse o contexto adequado para compreender/encarar aquela criança. Durante anos neguei-me a dizer que ele era autista e que não falava. Achei que dizê-lo era o equivalente a marcar uma peça de gado e que tinha tempo para, eu próprio, decidir o diagnóstico (eu, não as evidências, claro está). Agora vou aceitando. Sempre no gerúndio, porque ainda não sei levar as coisas no presente.


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