O meu candeeiro laranja

Deixei de escrever para este blog há cerca de dois anos e qualquer coisa. Entretanto aconteceu o Facebook, o Twitter, e outros tantos veículos mais adequados para a instantaneidade que caracteriza a nossa sociedade, maximizada na fórmula já não sei de quem, certamente tão pop quanto certeira do “bigger, faster, more, better”.

Faz sentido reatar relações com um blog? Isto é, reatar relações com um público que, agora mesmo, fez ninho noutras páginas, desapareceu da net, desapareceram ou mitigaram-se-lhe os problemas que o levavam a ser leitor disto, faz sentido voltar a tecer a rede social que animava estas páginas e que, de alguma forma, me folgava, vezes sem conta, a albarda que levamos às costas, chamada autismo, uma coisa medonha onde cabem todas as crianças lindas sem expressão facial adequada?

Eu mudei, e não foi inteiramente para melhor. Estive algum tempo a traçar assímptotas ao Guilherme, a tentar chegar a ele de raspão, por períodos curtos, como se ele fosse o sol de um albino sequioso de fotossíntese. Acho que acabei por desistir dele enquanto criança autónoma com projecto de futuro porque o futuro dele augurava-se demasiado difícil para mim. É tão egoísta como soa.

A verdade é que deixei, gradualmente, muito em especial depois de a mãe ter posto as mãos na massa, de saber lidar com esta albarda. E já soube melhor, já soube menos bem mas nunca tinha perdido tanto o contacto com os filamentos pelos quais eu conseguia chegar ao meu filho, mesmo que por instantes, mesmo que de formas não convencionais.

Estou a passar por uma crise, por uma mudança, no sentido epistemológico grego de krisis. Descobri-me ao espelho, por força de circunstâncias externas, e não gostei do que vi, do que me tornei: descrente em quase tudo e sem o contrapeso de um saudável cinismo que faça rir e ponha coisas a mexer. Há pouco tempo perguntaram-me: como te vês daqui a dez anos, ao que eu respondi: com sorte, não me vejo. Eu desci esta escada, mas fi-lo com a ajuda do autismo. O autismo é transmissível, se bem que assuma nos outros outras formas: é desespero, descrença e em mim tem tido o condão de pôr à superfície aquilo que levei anos a entulhar com cuidado no canto das coisas de que não gosto em mim próprio.

Na Ana o autismo encontrou generosidade abundante para que ela lhe sobrevivesse, mesmo que a custo. Há pessoas com graus de tolerância diferentes à mesma maleita.

O meu projecto de vida, nesta altura, é voltar a conseguir enfiar-me por baixo do cobertor autismo (como a minha gata faz com tanta elegância antes de eu conseguir sair da cama) para aí encontrar o meu filho, onde o deixei.

Qual o sentido de reatar relações com este blog? Tem um sentido principalmente diarístico: quero, daqui a três ou quatro anos, ler-me nestas páginas, como me li hoje, de um golpe, e perceber-me melhor do que estou agora, pelo menos no que concerne a relação com o Guilherme. Quero fazer disto um exercício de mnemótica que me faça ser uma pessoa melhor ou, pelo menos, que me ajude a suportar o espelho onde aparece sem piedade o pior que Pandora terá deixado no fundo da caixa.

Este blog pode ser como o meu candeeiro laranja, que me tem acompanhado e alumiado num silêncio de entendimento que as coisas só sabem ter nos olhos das pessoas.

Publicado em autismo. 5 Comments »

5 Respostas to “O meu candeeiro laranja”

  1. Mina Says:

    Bom regresso à blogosfera…
    Faz falta a opinião de um pai que viva estas nuances da perturbação autista, já sentia o vazio…
    E o blog é sempre mais um diário que marca os momentos e o estado de espirito do que as outras redes sociais…

    Já agora um bom ano de 2011 que haja progresso…
    Um abraço

    • Pai Says:

      Obrigado Mina, farei por dizer mais, mesmo que isso não equivalha a dizer melhor. Pelo menos fazemos uma higiene mental conjunta, tipo sauna mista sem o suor e o cheiro a eucalipto. Beijinhos.

  2. rosario filgueira Says:

    Bons olhos o vejam🙂

    Nestes 2 anos ja pasaram pela nossa vida 5 crianças…
    dividindo tristezas e multiplicando alegrias

    aqui nos perdemos e ali nos reencontramos entre os “bigger, faster, more, better”.

    Um xii

    • Pai Says:

      Estive a dar uma vista de olhos no seu blog, tem a ver com famílias de acolhimento, não tem? Mas não consigo precisar, certamente mea culpa, se concerne só crianças autistas ou se abarca todos os menores em situação de carência extrema.


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