Demonstração de resultados relativa ao dia do Pai

Como o título sugere, vou tentar afinar agulhas no sentido de tornar esta entrada um relato pragmático do que é o Dia do Pai para um progenitor de um filho com PEA, ao contrário do habitual luso-fatalismo que se atravessa transversalmente em todos os meus posts, por mais optimistico-intencionados que pareçam, à primeira vista.

O convite para o evento propriamente dito vem com uma semana de antecedência e repousa na mesa da sala, inocente e desdesconfiado, envelopado num enorme cartão multicolorido. Quem, como eu, passa e o namora de revés, não adivinha o que o cartão engoliu. Abro o envelope por sugestão da minha mais-que-tudo e de repente percebo a utilidade preventiva dos antidepressivos. Um evento social, como concordarão todos quantos têm filhos autistas, é como um tsunami inesperado a varrer a casota na ilha onde procurámos refúgio. Nunca estamos preparados, mesmo que nos dêem uma dúzia de anos para erguer a construção. O autismo é geneticamente anti-social e as famílias de autistas crescem em isolamento e cinismo. Não é maldade ou inveja. É a protecção natural da troça e incompreensão alheias (e afasto-me aqui do muro das lamentações para não quebrar a promessa feita no primeiro parágrafo, se já não a destrocei por completo).

Como é óbvio não fui ao evento. Como é óbvio a Mãe foi. Ela é muito melhor do que eu – como quase todas as mulheres são melhores que os homens, no que concerne as questões fundamentais (e não estou a passar a mão pelo pêlo de ninguém; custa-me tanto ser naturalmente simpático que até acho a expressão um oximoro. Preferiria doar um rim a ter de sorrir a contragosto. É esta a extensão da vontade de agrado que nutro). Quando digo que a minha mais-que-tudo é melhor do que eu, digo a embaraçada verdade. Eu fui trabalhar com reminiscências ocasionais da ocasião festiva quando passava por um cartaz alusivo ou quando alguém confessava o sumaríssimo frete que é ir a festinhas de gaiatos, sejam eles pequenos ou graúdos. Eu trocava o aborrecimento pelo filho normal. Outros trocariam os filhos falecidos por autistas. O desespero é absolutamente relativo. Posso ser poético?

Na noite do dia do Pai esteve o meu sobrinho de 3 anos em casa. Uma criança absolutamente normal, adoravelmente mimada e sedento de atenção como só a Elsa Raposo. Eu fiz de pai por um par de horas, porque o pai dele não estava. Fiz de pai dos dois. E até diria, ao contrário da maior parte dos meus dias, que o dia acabou bem; que me senti feliz. Os momentos são tão mais preciosos quanto escassos.

Desejo-vos uma Páscoa Feliz.

 

 

 

Publicado em autismo. 4 Comments »

4 Respostas to “Demonstração de resultados relativa ao dia do Pai”

  1. Mrs_Noris Says:

    Caro pai,🙂
    Como o compreendo. Por cá, e falando de aniversários, a decisão é tomada em função do local onde ser realiza a festa. Se for um recinto próprio para crianças, fechado e “almofadado”, onde não entrem outros adultos além das eduadoras que lá estão a tomar conta das crianças, então mando-o à festa. Se a festa for na residência do aniversariante, nem pensar. Tenho mesmo de arranjar um pretexto para não ir. Por razões óbvias, que nem preciso aqui enumerar, deixei de frequentar com ele as casas dos meus amigos. Os nossos convívios resumem-se a irmos à casa do meu irmão ou eles à nossa. Tenho um sobrinho um ano mais novo que o meu filho. Quando os dois estão juntos, o meu esgota-se em cerca meia hora, e lá temos de sofrer as consequência que advêm desse esgoamento: rouquidão, choros, gritos, descontrolo total. É impossível fingir simpatia perante este quadro. Mas há eventos e eventos. No dia do Pai, o pai do meu filho aceitou o convite e compareceu no infantário à hora marcada. Esteve com ele durante uma hora a fazer uma pequena actividade. Parece que correu bem. O ambiente é conhecido e estava devidamente estruturado. Ajuda. Mas também lhe digo, não me convidem mais para ter uma aula de ginástica aeróbica juntamente com as outras mães, totamente desprovida de calçado, já que habitualmente não uso ténis, enquanto as crianças e as educadoras assistem. Até porque nenhum de nós dois entende a razão de tamanha palhaçada no dia da Mãe.
    Gostei da comparação com a Elsa Raposo. Até passei a vê-la de outra forma . Muito mais simpática, diga-se.
    Uma Santa Páscoa para si e para os seus.

  2. Mina Says:

    Inevitavelmente, todos os progenitores de portadores de autismo ou SA acabam também por se fecharem num mundo próprio. Aqui por casa cabe-me a mim o papel de abertura ao mundo exterior, o que faço com muita persistência e não me corroi os olhares ou comentários ignorantes.
    Não me coibo de ir a locais públicos por ter este filho, claro que estou sempre vigilante e em controlo absoluto, e penso que com alguma exposição , as pessoas poderão começar a estudar a diferença, sem julgar o coitadinho.
    Tenho muito orgulho neste meu rapaz, mas só com insistência conseguimos alguma coisa. No Natal passado prepusemo-nos para, voluntariamente, ir vender artigos, todos eles executados pela Cerci que ele frequenta. Correu muito bem…o meu rapaz era o contabilista…e eu, sempre presente, fui aproveitando para divulgar a Síndrome de Asperger.
    Já participou em desfiles de moda, [já esteve noivo por duas vezes (lol)]. Participou em peças de teatro, onde já denotei algum poder de expressão, sem ser apenas um débito de palavras, e note-se que os papéis eram difíceis…nos quais fez sempre de protagonista, dada a facilidade em decorar textos. Ainda assim não estou satisfeita, porque sei que tudo isto é banal, perante as capacidades que eu sei que ele possui, e vou continuar até encontrar uma saída melhor…
    Como vê pai, vale a pena apostar.
    Por favor, não se deixe fechar…
    Tenha uma Santa Páscoa.
    Um Abraço.

  3. mariamartin Says:

    Caro Pai,
    No caso do meu filho e uma vez que o SA é ligeiro ele passa quase despercebido em eventos sociais mas não deixa de chamar a atenção para alguns pormenores.As pessoas devem achar que cá em casa somos fanáticos por alguns tipos de restrições alimentares (doces, quantidade de comida, etc.) e que o pobre passa fome, pois ele ataca as mesas de aniversário, casamentos ou qualquer festa.E depois é capaz de se fixar num qualquer alimento, camarões, por ex., e esvaziar uma travessa.
    Não brinca com as crianças da idade dele, ou toma conta dos mais novos ou fica perto dos adultos a ouvir as conversas…
    Ah! E claro que nunca dá os parabéns ao aniversariante a não ser que eu mande.
    Contudo, a maioria das pessoas com quem convivemos não tem sequer ideia que ele terá um “problema”, apenas o acham um bocado “esquisito” mas como sabem que ele é adoptado isso tem servido (não por nossa iniciativa!) para alguns comentários, tipo “pois, coitadinho, de onde veio não havia nada disto!” ou “com o tempo ele vai se habituando a ter eata nova vida, uma família, amigos.”
    Por isso, no nosso caso, ainda não nos privámos de conviver mas conforme ele vai crescendo mais difícil se vai tornando desculpar as conversas sem nexo, os comentários inconvenientes, o andar aos pulinhos por todo o lado, etc.
    E por último, em relação às mulheres, eu não acho que somos melhores, penso é que estamos mais bem dotadas para enfrentar as dificuldades da vida…Deus lá sabe o que faz!
    Um resto de boa Páscoa a todos!

  4. Pai Says:

    @ all
    Obrigado pelos comentários positivo-construtivos – como sempre.


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