Coisas que ele faz que me irritam

Podia ser o título de um post escrito por um gaja, para gajas, sobre gajos. Uma espécie de convite à catarse de género sob a forma de uma entrada de um blog. E decerto o facto de estar na internet, em esplendor digital e publica e remotamente acessível, não minoraria o facto de ser um apanhado na forma do decalque de uma conversa de cabeleireiro. Patético. Como é sobre o meu filho autista, é simplesmente trágico e não convida ninguém à troça gratuita ou ao juízo moral apressado.
Não gosto que ele olhe para mim como se não existisse, como se me estivesse a fazer um favor ou como se fosse translúcido como a água.
Não gosto que ele salte em cima do sofá quando vê desenhos animados.
Não gosto que ele meta as mãos na boca.
Não gosto que ele se babe.
Não gosto que ele meta qualquer porcaria à boca.
Não gosto nada da ideia da estimulação oral (remete-me para a mais elementar e desinteressante forma de exploração do mundo).
Não gosto que ele se deixe cair e se recuse a levantar-se.
Detesto que ele não perceba o que se lhe diz.
Não gosto de vê-lo a mexer nas coisas de qualquer forma e sem intenção alguma que não manter as mãos ocupadas.
Não gosto nada da sua ausência de assertividade e vontade.
Não gosto de ele não ser curioso.
Entristece-me pensar que o castigo por algo que ele não percebe ser errado.
Não gosto que ele me puxe os cabelos.
Detesto que ele coma com as mãos.
Não gosto do apetite incrível que ele tem (e se o contrário fosse, provavelmente gostaria menos).
Não percebo por que é que o mundo pode ser tão desinteressante
nem compreendo o contentamento semi-plácido de se querer quase nada.
Convido-vos a fazer listas deste género. Repõe o nível de Ph estomacal. E sempre posso pensar que daqui a dois anos olhos para isto como quem olha para os sintomas de uma doença há muito curada.
Publicado em autismo. 16 Comments »

16 Respostas to “Coisas que ele faz que me irritam”

  1. Mrs_Noris Says:

    Boa noite caro pai,

    No meu caso:
    – Não gosto quando gira sobre si mesmo até cair ourado, ou quando anda à roda à minha volta;
    – Não gosto quando sai da casa de banho sem antes se compor;
    – Não gosto quando me bate na cabeça enquanto o ajudo a vestir-se;
    – Não gosto quando acorda mal disposto;
    – Não gosto que morda as mãos quando está furioso;
    – Não gosto da sua gesticulação desordenada dos ombros e dos braços, enquanto passeamos;
    – Não gosto que escale os mesas, cadeiras, corrimões, muros, varandas…;
    – Odeio quando, descontroladamente, enche a boca de comida (se ralho, ri-se com a boca atulhada);
    – Odeio quando abandona a mesa antes do tempo;
    – Odeio quando grita, tapando os ouvidos, fazendo sobrepor a sua voz à minha;
    – Odeio que vá com as mãos ao chão ou as deslize sobre muros, mesas de cafés, paredes, carros estacionados, corrimões, etc., à medida que passa;

    A minha lista mas já foi muito mais extensa.😉

    Espero que o seu filho esteja bem e que a operação lhe tenha trazido os benefícios esperados.
    Um abraço.

  2. Pai Says:

    Obrigado pela gentileza de partilhar o seu desabafo e pelos sinceros votos que expressa para o meu filho. Infelizmente, até agora, não notamos nada. Não vou mentir dizendo que apostávamos todas as fichas nesta operação. Mas tendemos sempre a pensar que pode contribuir para um salto qualitativo na sua evolução. Esperamos. Temos tempo. Obrigado mais uma vez.

  3. mariamartin Says:

    Caro Pai,
    Aceitei o desafio e aqui vai a lista das coisas que ele (com 10 anos) faz que me irritam:
    – Que olhe para mim ou para qualquer ser vivo como se não existisse ou não fosse importante;
    – Que veja desenhos animados sempre com o comando na mão ou na boca, nas posições mais estranhas de contorcionista, que ria à gargalhada e fale com a tv e que deixe o sofá em “estado de sítio”;
    – Que os desenhos animados sejam, sem margem para dúvida, a coisa mais importante da sua vida;
    – Que ainda meta na boca objectos como se tivesse 2 anos;
    – Que ande na rua pulando tudo o que é obstáculos, aos pulinhos e passando as mãos por todo o lado;
    – Que me interpele com qualquer frase que parece uma pergunta e depois de lhe responder me diga “sim, eu já sei”;
    – Que nos responda “siiiimmm, eu seeeeiii”, irritado, quando acabámos de lhe explicar algo fundamental para que ele seja ou pareça normal;
    – Que não saiba que estamos no Inverno, que vamos para o Algarve em Agosto e em que dia fazemos anos, eu, o pai e o irmão;
    – Que não perceba porque é que os avós de Lisboa não vêm ao jantar de aniversário;
    – Que está calor, está a transpirar e por isso tem de tirar o casaco; que está frio e por isso não deve andar descalço e em cuecas pela casa fora;
    – Que para ter amigos não pode brincar de mandar os outros “fazer coisas”;
    – Que quando fala com alguém tem de se explicar e não dizer coisas fora de contexto como se o seu interlocutor tivesse “telepatia”;
    – Que encha o quarto de objectos inúteis, lixo que acha na rua e diga para não deitar fora que é para ele fazer umas coisas, que depois não faz;
    – Que tenha um quarto cheio de brinquedos, jogos, livros e só pense em ver desenhos animados;
    – Que não perceba porque foi castigado e que repita o disparate dizendo “esqueci-me”;
    – Que se tenha mesmo “esquecido”;
    – Que jante a olhar para o telejornal, como todos nós, mas em vez de ouvir as notícias leia o rodapé, de forma a que as suas conversas e comentários nunca tenham nada a ver com a notícia que está a passar.
    Mas fundamentalmente, o que eu detesto mesmo é:
    – Que ele nunca me abrace, me agarre ou me beije;
    – Que fique hirto quando o abraço e tente desembaraçar-se de mim;
    – Que me faça sentir mais sozinha quando estamos os dois do que se realmente estivesse sozinha.
    Também espero daqui a dois anos estar a ler isto e pensar que agora já não é nada assim.
    Beijos para todos em sua casa.
    mariamartin

  4. Mrs_Noris Says:

    Caro pai,
    A Isa do blogue SouComoTu pede que lhe seja transmitido o seguinte:

    “Alguém
    pode ter a gentileza de avisar o Pai, do Trabalho de Casa, que não consigo comentar no blog dele há uma data de tempo? O comentário fica feito aqui.”

    Abraço.

  5. Pai Says:

    mariamartin -> incrível como me revejo na parte que concerne os desenhos animados. Parece ser a única coisa que existe de facto para o Guilherme. Só quer ver desenhados animados e quando os está a ver (coisa que doseamos com alguma moderação) não vê mais nada. Podíamos operá-lo sem que ele sentisse, é essa a impressão que tenho. Denoto igualmente que tem preferências bem marcadas: gosta de coisas com muito movimento, com ritmo (uma espécie de estímulo visual?) e não consegue permanecer quieto. O sofá fica de pantanas quando é ele o espectador. O seu também tem preferências marcadas? Detecta-lhe algum padrão. É algo que me interessaria falar com alguém na mesma situação, se lhe aprouver. Obrigado.

  6. Pai Says:

    Mrs_Norris -> aluzlafora@yahoo.com é o email deste blog. Pode dá-lo à Isa, para que eu possa tentar despistar o problema? Obrigado desde já.

  7. MRelvas Says:

    Pois, já nem penso nisso.Gosto dele.Precisamos de descansar, mas quando estamos uns dias sem ele…parece o fim do mundo e sentimos a falta de coisas banais como descreve.

    Quando penso que ele podia ser paraplégico, ter paralisia cerebral, ou cegueira e autismo, sinto-me feliz!

    saudações e um sorriso

  8. mariamartin Says:

    Caro Pai,
    Não sei se ele tem um padrão no sentido de ver sempre os mesmos desenhos animados mas notamos que vê sempre os mais “infantilóides” possível, florinhas a falar, insectos a brincar e raramente vê aqueles mais violentos ou com monstros para os mais crescidos. Ainda no ano passado via o Ruca e o Nody às escondidas de nós porque “gozávamos” com ele, embora com boa intenção.Dificilmente aguenta ver um filme inteiro de desenhos animados (Ratatui, a Idade do Gelo, etc.) porque acho que se cansa com o ter que perceber a história toda.
    Mas o que é grave é que o meu já tem 10 anos e anda no 5º ano…!E de certeza que os seus colegas vêem outros programas de tv…Além disso levanta-se aos Sábados e Domingos às 8.00h para ver desenhos animados…Tivemos que o proibir de sair do quarto antes das 9.00h!
    Contudo, apercebemo-nos que ver desenhos animados funciona para ele como uma terapia tranquilizante. Enquanto está nessa sua “actividade-inactiva” não está a esforçar-se para nada e notamos que isso o deixa mais tranquilo. Às 5ªs feiras e 6ªs feiras notamos que ele começa a andar mais stressado, com mais tiques,mais dificuldade em conversar de forma coerente e perceptível, muito provavelmente devido ao esforço que faz para se “socializar” toda a semana na escola e, por isso, deixamo-lo sempre ver um pouco de bonecada aos fds.
    Vou deixar-lhe o meu email no deste blog para que possa contactar-me e trocar mais algumas experiências.
    Um abraço.
    mariamartin

  9. Maria Anjos Says:

    olá a todos,
    Resisti um pouco a fazer a tal lista, porque, de facto, o meu pequeno já fez tantos progressos que quero valorizar as coisas boas e “esquecer” um pouco as que não o são. Contudo, ao ler as vossas listas, identifiquei muitas coisas que o meu tb faz ou fez. Assim, numa perspectiva, digamos, de verificar padrão de comportamentos dos nossos meninos, cá vai a minha lista.
    Não gosto:
    – que peça tudo aos gritos quando não percebemos à 1ª o quer,
    – que corra pela casa fora, aparentemente sem nexo e sem ver nada e ninguém à volta (sala/cozinha- cozinha/ sala) quando está a ver bonecos na TV e fica mais alterado/excitado,
    – que pulo no sofá, se meta no meio das almofadas, até elas sairem dos fechos que as seguram,
    – que nos bata porque está feliz ( isto acontece qd está a ver bonecos de que gosta muito, começa a rir à gargalhada, aos pulos e lá vai distribuindo palmadas a quem está por perto. Contudo, na escola não bate a ninguém, nessas circunstâncias, apenas sucede em casos de disputa de alguma coisa e, por norma, até nos dizem que ele qd lhe batem não responde, mas vai fazer queixa de tal),
    – que continue a depender imenso da chucha ( mas só a pede em casa, no colégio só quer saber que ela está na mochila, mas não a usa),
    – que qd não lhe damos a chucha, meta as mãos todas na boca,
    – que me bata na cabeça quando o estou a calçar,
    – que me aperte o nariz até me magoar ( depois dá-me beijos), me puxe os cabelos (tb lhe puxo e ele larga) e continue a querer enfiar-me os dedos nos olhos para dizer “oios”,
    – que fique horas a fio a ver bonecos, pedindo para por filmes em todas as televisões lá de casa,
    – que não termine as refeições connosco, que faça sempre resistência para iniciar a refeição ( diz sempre que não quer, mas depois de provar até diz “que bom” e come), que diga que não tem fome e depois anda à procura chocolate que, por vontade dele, estaria sempre a comer ( aliás foi das primeiras palavras que ele começou a dizer com maior frequência e de forma mais completa “cocolate”).
    – que não queira ir para o banho, porque não quer deixar de ver TV , mas depois tenha de sair da banheira quase à força, ao fim de banhos de mais de 30 minutos ( isto sucede durante a semana, pq chega do colégio sedento de ver TV e depois não quer fazer mais nada, ao fim de semana a ida para o banho é pacifica, a saída é que é dificil).
    E pronto, em suma é esta a minha lista. Então, quando acharem oportuno, vamos fazer a das coisas que gostamos, ok ?
    Um abraço para todos.

  10. mina Says:

    Olá todos
    Receei, comentar est post,para não quebrar o encanto do pai na cura.
    Mas lamento que o meu filho já adulto tbm tenha comportamentos que eu não gosto
    Principalmente naqueles dias que estou com o sistema mais down
    Não gosto dos flapings(que fazem estremecer qualquer ojecto)
    Não gosto de estalidos com os dedos
    Não gosto dos sopros continuos…
    Não gosto que roa as unhas, e cheire os dedos de seguida…
    Não gosto que não saiba utilizar os talheres, e que rape o prato literalmente….
    Que tenha comentários inopurtunos com estranhos…
    Enfim não gosto de todas as estereotopias, que adquiriu na adolescência,quando a
    libido aumenta e não há controle.
    È possivel que haja medicação que faça algum controle desta sintomatologia, mas eu não quero um filho adormecido, nem apático, ele existe e está vivo…
    E eu amou-o acima de tudo,amar não é estar sempre de acordo,mas saber viver com estas diferenças…
    concordo com a maria dos anjos a seguir fazemos a lista das coisas boas…
    Boa tarde a todos

  11. Pai Says:

    @Maria Anjos -> Obrigado pelo seu testemunho. Começo a perceber (talvez tardiamente e talvez seja o último) que existe, ou parece existir, um padrão de “culto” das nossas crianças pela bonecada. Eu posso dizer que o meu é absolutamente fã e é praticamente a única coisa interessante que encontra para fazer em casa (e não temos assim tão poucos brinquedos…). Se ele fosse uma criança normal eu conseguiria lidar melhor com isto. Mas se ele fosse normal conseguiria lidar melhor com tudo.

  12. Pai Says:

    @MRelvas -> Confesso não ser adepto do relativismo disposicional. Não consigo sentir-me melhor por ele não ser pior do que é. Sou naturalmente pessimista e trágico (talvez resquícios de ter nascido sob clima francês) e mais rapidamente me ensombra o dia a felicidade alheia do que a tristeza de quem está pior do que eu. Problema de perspectiva. No fundo invejo a sua.

  13. Pai Says:

    @Mina -> Não se preocupe com ‘danos colaterais’. A sério. Sozinho consigo de uma fez destruir uma arregimentação de sonhos. Obrigado sobretudo pelo seu testemunho e por nos lembrar que há dias mais susceptíveis que outros.

  14. MRelvas Says:

    Não caro Pai,

    não é do clima, nem do país de nascença.É da consciência que por vezes nos irritamos porque gostariamos de padrões normais. Se eu fosse a dizer que me irrita o meu filho agora não estar na tropa e ser Comando, seguindo-me as pisadas iria debater-me com mais um problema.Iria continuar a não acietar o Bruno como é. Se pensarem que todos os pais gostariam que os filhos “normais” fossem assim, ou assado (nunca estão satisfeitos) pergunto:para que nos dar à maçada do fatalismo.Já ultrapassei essa fase!

    Essencialmente temos que divulgar o autismo e dizer pelo mundo fora que os nossos filhos nem são do Benfica, nem do Sporting, nem do Porto, gostam de ser do clube deles.Puro, sincero, com dedicação “ad eternum”!

    Perspectivas…

    Saudações e um sorriso

  15. Fernando Azevedo Says:

    Boa tarde a todos,

    Como é obvio não desejei ter um filho autista, mas tudo o que ele faz eu amo por ele ser simplesmente meu filho, uma criança que é diferente nada mais,,,,

  16. Sofia Paço Says:

    “A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”
    (Carlos Drummond de Andrade)

    Se eu puder ajudar:
    http://jogosdidacticos.blogspot.com/
    http://actividadesautistas.blogspot.com/
    http://pecsemportugues.blogspot.com/

    Kiss com muita força e muita esperança
    mama sofia paço


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