as ressacas pós-natalícias e o pré-operatório

Invejo com laivos de fundamentalismo islâmico quem consegue fazer um título de três palavras que resuma aquilo que eu normalmente escrevo em pouco menos de uma dúzia. A capacidade de síntese é um dom que invejo tanto ou mais do que o talento para jogar na bolsa. Não tendo um ou outro, escrevo muito e ganho pouco. A minha herança será provavelmente composta por alguns magros tostões que serão o apêndice de dezenas de cadernos, folhas rabiscadas e outros testemunhos gráficos da minha passagem por este sítio de agradabilidade duvidosa. Aqui findo a parte da ressaca.
Eu acordo normalmente de mal com o mundo. Levo uma hora e qualquer coisa a fazer as pazes com a existência das coisas que, às oito e pico, me parecem um insulto directamente encomendado pelo Senhor na sua versão velho-vingativo-do-antigo-testamento. Com um filho autista, a duração do “meeting pacificador” é proporcional ao estado matinal do petiz: se está bem disposto e comunicativo, há como que um véu que de repente é sacudido de cima das coisas, deixando-lhes intacto o brilho e a cor que teimam em acariciar a pupila; se, pelo contrário, ele não está propriamente nos seus melhores dias, a tudo quanto me parece grotesco existir, no meu estado “normativo” (adoro esta palavra, que quer dizer exactamente o mesmo que normal mas com mais letras; é uma prova escrita que não sou o único com dificuldades de síntese) parece ser acrescido “um bocadinho assim”, o suficiente para que a minha disposição entre em modo remoinho e se escoe num rodopio de grunhidos e suspiros. Eu sou assim, instável como a vertigem. O autismo é só mais um par de maxilas ferradas nas calças que puxam continuamente até que eu caía.
E é por isso – por me andar a sentir infeliz porque espero sempre do Guilherme mais do que ele geralmente me dá – que tenho estado mais afastado disto, da blogueirice, dos intercâmbios que começam a fazer parte integrante da vida dos pais com crianças tão diferentes das restantes como umas das outras.
Entretanto vejo com grande satisfação que florescem blogues, que a comunidade virtual cresce e com ela o interessa alheio e mediático que pode estimular uma discussão pública sobre o tema que contribua para uma melhoria da qualidade de vida dos nossos filhos e lhes granjeie, pelo menos em possibilidade, um futuro melhor.
O Gui vai ser operado na Segunda-feira. Os tubinhos. O facto de ele ter repetidamente otites serosas e de não ser ainda verbal faz com que a comunidade clínica que o acompanha tente melhorar a sua audição na esperança que isso melhore ou despolete a sua verbalização. Eu sou, como já sabem, um pessimista incorrigível e desde logo não nutro as mesmas expectativas. Além do mais antevejo os problemas que advém de anestesiar e operar uma criança de 4 anos que não consegue comunicar o que sente e, até ver, aquilo que percebe de médicos e enfermeiras fá-lo chorar de cada vez que entramos numa sala de consulta.
Sei que este post foi como que bochechado, mas a minha inabilidade sintética e o cansaço que se começa a acumular não me permitem fazer uma enumeração que trace sentidos unívocos a cada ponto nem organizar este amontoado de palavras e parágrafos num texto escorreito onde se salte de um assunto para outro sem necessidade de trampolim.
Queria dizer que estou vivo. Que estamos vivos. Que é difícil todos os dias e que não tende a melhorar. Queria sobretudo dizer que gosto vos atirar estas palavras, de vez em quando, e de ouvir o som que fazem no regresso. Não deixem de ecoar.
Pai.
Publicado em autismo, blog. 3 Comments »

3 Respostas to “as ressacas pós-natalícias e o pré-operatório”

  1. MRelvas Says:

    Belo texto.Nem curto nem comprido.O necessário para o ler num ápice e esperar por mais.

    Quanto à operação espero que tudo corra pelo melhor.Sei o que é essa ansiedade.

    O recobro é a parte mais importante. Acordar devagar e olhar os seus ali juntinho!!

    Abraço

  2. Maria Says:

    Caro pai.
    Gostei de o ler, de o “rever”🙂
    Gostaria que o meu testemunho vos pudesse ajudar: a descentrar (também gosto muito desta palavra🙂 ).
    Há alguns anos li um livro (de Steve Biddulph: “O segredo das crianças felizes”) que diz, acho eu, uma grande verdade (referindo-se às crianças “normais”, seja lá o que isso for…): com o tempo, os “super” pais e mães, cansados, doentes, sobrecarregados de tensão (normalmente os pais mais tensos são aqueles que têm para consigo os padrões de exigência mais elevados, acabando por colocar as suas próprias necessidades num nível muito baixo da sua lista de prioridades…), acabam por atingir um ponto em que deixam de conseguir ser pais e esquecem-se que têm três responsabilidades, por ordem de importância: primeiro cuidar de si próprios, depois do cônjuge (se houver) e só depois cuidar do/s seu/s filho/s.
    Temos, como pais destas crianças, muitos e longos anos à nossa frente de desgaste. Temos mesmo que (saber/querer) cuidar de nós próprios🙂
    Um excelente ano de 2008 para vós e desejos de que tudo corra pelo melhor com a operação.
    Um beijo.

  3. Mrs_Noris Says:

    Caro pai,
    Se é certo que o nosso estado de espírito depende do deles, por aqui o contrário também se verifica. Eu noto que o meu filho fica mais perturbado, digamos assim, quando estou mais em baixo ou preocupada com alguma coisa. Concordo com a maria, temos de cuidar também de nós. Eles precisam.
    Votos de que tudo corra pelo melhor para o Guilherme e para a família, e que em breve possa estar aqui novamente com boas notícias.
    Um abraço.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

«

%d bloggers like this: