Natal

Inevitavelmente, e desde que o Guilherme nasceu, os meus natais não mais foram os mesmos. As razões são muitas e quase todas elas óbvias e dolorosas. Não é fácil conviver com a expectativa alheia de quem compra um presente à espera de receber, ainda que por educação, um obrigado ou um sorriso gratificante. Para o Guilherme, a polidez das boas maneiras e a natural e bem intencionada hipocrisia com a qual disfarçamos a custo a desilusão não existem ou não fazem sentido (assim como o contrário – a expansividade associada ao recebimento daquilo que se pediu – está “desligada”). Da mesma forma, brincar com as coisas tal como quem as criou intenciona não é para ele. Por muito que as pessoas insistam
“aquilo quadrado com botões é o comando do carro” (que ele utiliza, por exemplo, para cavar um buraco no vaso da trepadeira ou para decepar um pombo desprevenido)
ele conforma a maneira como se brinca com as coisas: é a maneira dele esta última não é, normalmente, intersubjectiva.
Começo a pensar que no futuro as pessoas vão oferecer-lhe coisas sem qualquer tipo de estímulo emocional reactivo associado. Nem vão esperar pela sua reacção para passarem ao conviva do lado (normalmente mais receptivo e muito mais expansivo). Ou vão passar a dar-lhe somente “coisas lúdicas”, como puzzles do Noddy e similares. Ou passam a dar-nos dinheiro enquanto nos miram do alto da piedade e compaixão natalícias e em nós, ainda que às mijinhas e de forma sazonal, expiam o pecadilho repetido do consumismo fazendo a caridade cristã de nos dispensar uns trocos para as terapias e um soslaio de sorriso terapêutico. Ou vamos todos continuar a fingir que ele é normal e que por acaso até dão jeito os cinco carros telecomandos aos quais ele não encontra serventia no comando.
Publicado em autismo, festas. 8 Comments »

8 Respostas to “Natal”

  1. Maria Anjos Says:

    Olá Pai,
    Sei bem do que fala…
    O meu filho, com 4 anos, este ano, a determinada altura, recusou-se pura e simplesmente a abrir presentes. Imagine os familiares a verem o irmão, com 6 anos, a vibrar com cada presente que abria e a querer mais e mais, ao passo que o outro se mantinha numa indiferença, que chegou a impaciência e recusa de aceitar e abrir mais presentes!
    Contudo, pensando bem, até acho que foi o mais lúcido e sensato no meio deste consumismo.
    De facto, ao contrário dos outros anos, este ano pediu-nos um presente: catalogo de brinquedos na mão (Toys r us) e pedidos insistentes da pista do Faísca Maqueen do filme “Cars”( adora tudo o que diz respeito a este filme, possuindo já uma colecção de objectos apreciável), que chegou mesmo a provocar algumas birras, pelo facto de, sempre que a via em alguma loja, a querer trazer à viva força. Como já lha tinhamos comprado e ainda embarcamos nesta coisa de dar a prenda na noite de Natal, fomos dizendo que não e provocando umas birras valentes e um desgaste imenso nos pais. Claro que quando lha demos, na noite de Natal, ele ficou deveras feliz e abraçou-nos imenso, pondo-se de seguida a brincar com a pista e não ligou absolutamente a mais nada. Afinal, era aquilo que ele queria! Acho que, depois, não percebeu porque é que, de repente, toda a gente lhe queria dar prendas! Lá abriu mais uma ou duas, olhou e pôs de lado, para, de seguida, não querer mais nada. Claro que o irmão se encarregou de abrir as dele, para delicia da assitência que assim viu compensado o esforço da aquisição.
    Um Bom Ano para si e para os seus, cheio de esperança renovada!
    Maria Anjos

  2. mariamartin Says:

    Caro Pai,
    Também o meu com 10 anos nos deixa esse “sabor a pouco” na noite de Natal. Começa pela sofreguidão da comida pois, na verdade, as iguarias da mesa prendem-lhe mais a atenção do que os avós, o irmão, o primo ou qualquer um de nós.Depois, os brinquedos são abertos com a curiosidade científica de um Prof.Tornesol, explorados durante 1 ou 2 horas e abandonados de seguida até um dia dos meses mais próximos.Esperta fui eu que este ano em vez de lhe dar um brinquedo de 50 ou 60 euros fui a uma loja de chineses e comprei 5 de 3 €…o efeito é idêntico e fica mais barato…!Beijos e abraços de agradecimento? Nenhum!
    Exímio nas tarefas domésticas de servir à mesa, levantar a mesa, etc. para gáudio dos avós que continuam dizendo com um ar entre o esperançado e o desgostoso: ele é tão ajeitadinho,porta-se tão bem, quem sabe isto não lhe passa com a idade. E atendendo à idade deles nós vamos dizendo: pois, talvez, quem sabe…
    O saco (daqueles do supermercado!) cheio de chocolates que a avó paterna lhe deu está escondido para evitar que ele faça como no ano passado: comeu-os todos em 4 dias e andou outros 4 de diarreia…
    Desejo-vos um excelente anos de 2008 cheio de esperança e perseverança, amor e bom senso…que tanta falta nos faz.
    Um beijo a todos!
    mariamartin

  3. Isa Says:

    No meu, esse desapego ainda não se nota. É muito novinho. Delirou com a minha prenda e acordou a perguntar por ela. Mas entendo perfeitamente que um dia pode muito bem vir a ser assim. Não alimento ilusões nem previsões trágicas. Daí o meu entendimento pleno desta reflexão. É o que temos, querido Pai. Mesmo com alguma amargura que entendo e compartilho muitas vezes, não deixei de me deliciar com a forma como escreve. Que 2008 nos traga mais subidas lentas do que descidas vertiginosas. Um beijinho a todos

  4. mrelvas Says:

    Sei bem como é isso durante 19 natais. Sabemos o que o Bruno quer e telefonam-me os meus familiares a perguntar o que oferecer. Assim renovou os seus electrodomésticos pessoais… um frigorífico, uma máquina de lavar roupa, micoondas, um DVD do Mister Been, microfone com máscara do homem aranha… e assim se renovaram os seus brinquedos preferidos. Trocou-se a televisão do seu quarto -a marca que gosta é que interessa- (por sinal das mais baratas)!

    E voilá, eis o natal do Bruno com as suas prendas alinhadas ao lado da cama!!

    FELIZ ANO NOVO COM AROMAS DE PORTUGAL

  5. Mrs_Noris Says:

    Caro pai,
    Esta foi a primeira vez que o me filho de 5 anos pediu uma prenda ao Pai Natal: a pista Cris Cross Crach da Hotwheels. Entusiasmado, na noite de 24 pôs o sapatinho debaixo da árvore e preparamos um lanche para o “velhinho” (que tive de dissipar mal ele adormeceu deixando apenas as migalhas). Até colocou na bandeja um dos seus bombons preferidos. Foi deitar-se sabendo que teria de dormir caso contrário não haveria prenda. E dormiu bem. Na manhã seguinte, contrariando a habitual tendência de levantar-se mal abre os olhos, permaneceu na cama acordado, não fosse o homem das barbas brancas ainda não ter passado. Ou seja, levou a coisa muito a sério. Tão a sério que temo daqui a 10 anos ainda acredite na lenda. Vibrou com a nova pista que cuidadosamente havia desenhado, não fosse haver enganos, e até me disse muito convicto: “Vês mamã, ele viu o meu desenho.”
    Aos restantes presentes de Natal não deu muita importância. Hoje. Certamente nos próximos dias lhes dará alguma utilidade. Para ele qualquer brinquedo serve para bater, por exemplo. Também já o vi usar os livros para os fins mais diversos: como elevadores, garagens, pontes ou esconderijos. Por outro lado, acha super-interessante alinhar ou empilhar indiscriminadamente os brinquedos, sem qualquer fim aparente.
    De qualquer forma, o meu filho evoluiu positivamente no que respeita a receber e abrir presentes. Para ele, que sempre teve dificuldade na gestão das emoções, receber um brinquedo novo e descobrir sozinho (pois não aceitava ajuda) como funcionava, era um motivo de stress que conduzia sempre ao choro de frustração e também a uma certa apreensão/desilusão por parte de quem ofereceu. Hoje já reage de forma mais aceitável, mas sempre com genuinidade que lhe é característica.
    Um 2008 cheio de paz e esperança para si, para o Guilherme e para todos os que lhe são mais queridos!

  6. Mãe de K Says:

    olá a todos, no dia 25 de Dezembro de manhã como já é habitual vamos lá todos abrir as prendas, a minha filha com 4 anos entusiasmada a abrir as prendas a querer ajudar a montar uma caminha para o nenuco e o meu filho com 7 anos lá foi abrir a dele aquilo que ele tinha pedido “Selva do Tarzan”. Bem ele abriu a caixa, olhou e colocou lá num canto… Eu insisti “vamos lá abrir tudo e montar para depois brincarmos” depois de uma birra dele, ajudei-o a montar e com muuuuita paciência montamos só no dia 27 à tarde. Ele estava a espera que viesse tudo pronto… hoje dia 31 Janeiro só brincou 1 vez. A play station que foi o presente para toda a família fez mais efeito e ele tem jogado aos fins de semana. Concordo também com o exagero na nossa sociedade com o consumismo, apesar de estarmos todos com falta de dinheiro, compramos sempre uma prenda muitas vezes cara para os miúdos e ainda por cima chegamos à loja e já está esgotado aquele brinquedo.
    Um bom ano a todos e já agora bom Carnaval

  7. mariamartin Says:

    Caro Pai,
    Estranhamos a sua ausência…espero que esteja tudo bem e o problema seja idêntico ao que me afecta: falta de tempo!
    Até breve!
    mariamartin

  8. Ariane Says:

    Olá, pai. Falo daqui do Brasil e quando li a descrição do seu Natal, parece que estava vendo meu irmão Asperger de 18 anos na minha frente. Quando era mais novo, se interessava pelos presentes (ou prendas, como vcs dizem) que recebia. Mas com o passar do tempo, este interesse foi minguando. Nesta Natal, não agradeceu nada do que recebeu e deixou tudo de lado, sem manifestar qualquer emoção. Muitos parentes já sabem do seu distúrbio, mas nota-se um constrangimento no ar.
    Só abriu os presentes dias depois, e até que mostrou algum interesse, vestindo as roupas que ganhou e etc.
    Um bom 2008 para vc e sua família (na medida de possível, é claro).


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