Regresso, parte III

Ainda há poucos dias contava-me a mãe do Guilherme (ao telefone, porque desde que aceitei o emprego em que estou vemo-nos menos que líderes de países em guerra) que o rebento está feliz no novo infantário, que se ri para os colegas, que se diverte e que toda a gente o trata, aparentemente e à primeira vista, como o menino muito especial que ele é.

Não querendo desfazer a possibilidade de haver gente com vida pior que eu (tão certo como haver outras vidas que não a minha), a verdade é que esta á a segunda boa notícia que recebo nos últimos seis meses. Em relação ao Guilherme, é a grande notícia do ano, motivo para abrir a garrafa de Raposeira que sobrou do ano novo e que nunca temos coragem, sob pretexto algum, de estourar, por superstição infundada que o motivo não mereça a pena.

As nossas terapeutas estão radiantes com a sua integração (se estiver errado em relação a isto, desmitam-me num páragrafo de açoite público). Eu estou radiante. Menos um problema. Um grande e penoso problema que fica enterrado, com o rabo de fora, até que ele mude de infantário ou que tenha de ir para a primária. Temos dois, três anos para pensar em alternativas, tantas quanto a sua evolução nos permita abranger. Está nas mãos dele. Como sempre.

Publicado em autismo, Ensino. 7 Comments »

7 Respostas to “Regresso, parte III”

  1. Isa Says:

    Pai, ainda muito “de fora” do problema, sei qual é a sensação de ter medo de acreditar. Quando se vêem progressos, fica-se com medo que eles nos escapem, porque seguidos de uma qualquer “desilusão”, retrocesso ou estagnação. Penso até que deve ser o que mais dói em todo este processo… Conter a esperança para que ela não resulte numa tristeza maior. Ainda assim, com todos esses riscos, sou muito mais pela esperança do que pela contenção. A vida tem-me ensinado isso, felizmente.

  2. mariamartin Says:

    Caro Pai,
    Vim ter ao seu blog por indicação da Mrs.Norris,minha conhecida do blog do Asper, com quem por vezes partilho desabafos no messenger e assim nos vamos cruzando, pais e mães de meninos com diagnósticos e idades muito diferentes mas que partilhamos o “espectro do autismo”.O meu rapaz com quase 10 anos foi recentemente diagnosticado com SA e estamos também actualmente a passar pela fase da adaptação à sua entrada no 5º ano de escolaridade.Até agora sem grandes perturbações, felizmente.Acho que deveriam abrir a garrafa de Raposeira e festejar a boa adaptação do Guilherme com muita alegria e muita esperança!!!

  3. Pai Says:

    @ mariamartin —>

    Folgo em saber que a adaptação do seu filho ao 5.º corre bem. Para o seu rapaz só ter sido diagnosticado agora deve ter uma perturbação muito ligeira, suponho. Ainda assim, se me permite a pergunta, que sinais a levaram a consultar um especialista?
    Obrigado pela sua nota de esperança.

  4. mariamartin Says:

    Caro Pai, na verdade o nosso menino é um caso ligeiro de SA, sem comprometimento motor e por isso nos 2 primeiros anos desculpámos a sua infantilidade,a falta de manifestações de afecto,a desorientação no tempo e a falta de amigos como “normais” atendendo a que foi uma criança maltratada até aos 3 anos e que viveu em instituição até aos 5.Contudo, com o passar do tempo,a infantilidade já era demasiada,a rejeição nítida aos nossos carinhos e beijos acentuou-se e a incoerência entre as suas boas notas escolares e o facto de não conseguir aprender a ver horas ou a saber o valor do dinheiro começou a evidenciar que algo não estava bem.Seguiram-se os pequenos furtos de coisas em casa (cont.)

  5. mariamartin Says:

    (cont.)que escondia e levava com ele p/a escola(facas,isqueiros,chaves de fendas,dinheiro do mealheiro,telemóvel do irmão, etc.).Apesar dos castigos,sermões e algumas bofetadas,ele repetia no dia seguinte sem qualquer hesitação.Isso,associado ao facto de não nos demonstar qualquer afecto levou-nos a pensar que nos estava a “rejeitar” como pais.Levámo-lo a uma Psicóloga clínica que ao saber da sua história de vida logo disse que sofria de “stress post-traumático” e “embotamento emocional”.Fui à net ler sobre isso e achei que ele não tinha nenhum sintoma desse tipo de perturbações.E lá andámos a gastar uma fortuna durante meses sem grande progresso para além dos “furtos” que deixaram de ocorrer.Até que uma amiga psicóloga,mãe de um “aspie” com 13 anos, ouvindo os meus desabafos desesperados me disse para eu ler sobre SA.Quando o fiz, pareceu-me estar a ler um relatório feito sobre ele:lá estava a desorientação espacio-temporal,a rejeição ao toque físico, o não olhar nos olhos,o não cumprimentar as pessoas, a falta de amigos,o não saber brincar,o não perceber segundos sentidos,as conversas desconexas,os tiques,etc.Daí partimos para o CADIN e foi-lhe diagnosticado SA ligeiro.E aqui está a nossa história, de um menino de 9 anos,no 5º ano, com bom aproveitamento mas que diz que o Natal é no dia 15 de Dezembro,não sabe quando o pai, a mãe e o irmão fazem anos,não tem a noção do valor do dinheiro,confunde levar com trazer,ontem com antigamente,não tem um único amigo e um sem número de “esquisitices” (como gosto de lhes chamar)que se não ultrapassar com o nosso “treino” diário dificilmente não o impedirão de ser um adulto autónomo.O mais difícil,parece-me, por enquanto,é a área afectiva e social porque ele não percebe mesmo porque é que as pessoas se abraçam e beijam e passam a vida a tocar-se, nem a diferença entre uma pessoa com quem fala uma única vez e um “amigo”.A ver vamos…

  6. Pai Says:

    Cara Maria Martin, obrigado pelo seu testemunho. Se não se importasse gostava de o transformar numa entrada neste blog. Aqui está escondido como comentário. E julgo que é importante. Para todos. É um relato de vida.
    Se lhe aprouver, comunique-mo. E em que moldes preferia fazê-lo.

  7. mariamartin Says:

    Caro Pai,
    Esteja à vontade para publicar o meu comentário como post pois a troca de experiências é para nós pais uma boa forma de terapia…e dá a endurance necessária a enfrentar o dia-a-dia.Diga-me se precisar da minha colaboração.


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