RR

 

Retrocessos e reinícios. A minha vida tem sido a roda-viva do me encontrar sempre a começar qualquer coisa. Sempre do zero. Tal como o Sísifo que sempre que chegava ao cimo do monte com a pedra ela voltava a escorregar. Pois assim tem sido comigo, sempre que consigo ter força suficiente para chegar ao objectivo almejado, logo a porcaria do pedregulho, mal colocado e desequilibrado, rebola até ao vale, destruindo pelo caminho todo um passado de esforços.
Durante muito tempo me culpei (provavelmente ainda me culpo, mas pelo menos já sei que o faço) pelo facto do diagnóstico do Guilherme constituir um desses momentos de retrocesso. Naquele momento, enquanto fazia o percurso Aldeia do Meco-Lisboa e pela primeira vez com certeza o pai me disse que o Guilherme tinha uma perturbação do desenvolvimento do espectro autista questionei toda a minha vida, todas as escolhas e percursos. Tudo se desfez num grande e pesado zero, pois desde logo percebi que o meu passado em nada poderia ajudar o meu filho. Larguei a pedra e deixei-a destruir tudo, nada do que havia aprendido ou experimentado me poderia ajudar agora.
Desde então tenho revivido vezes sem conta aquela sensação e de todas as vezes começa sempre com a mesma pergunta: “O Guilherme está a evoluir ou não?” Os mais optimistas dirão que sim, os mais realistas dirão mais ou menos, os pessimistas deixamos de fora porque não ajudam.
É sempre tão complicado avaliar, muito menos com frieza, afinal não somos propriamente cientistas a analisar um objecto de estudo. O Guilherme é nosso filho e apesar de ser injusto (disse-me uma amiga) ele carrega (vou dizer parcialmente para não parecer mal) a responsabilidade de eu e do pai sermos felizes. Pois, quer queiramos quer não, a nossa felicidade pode derivar de uma conjunção infinda de factores mas a verdade é que existe uma hierarquia, se o fundamental não está bem que se lixe o resto. Assim acontece connosco e com o nosso rebento.
Por ser um processo penoso mas necessário compete sempre ao pai fazê-lo (é mais do seu feitio). As reavaliações da situação começam geralmente com o pai a sugerir um retrocesso e a mãe apressadamente a desfazer qualquer suspeita, assegurando que tudo não passa de uma visão cansada de final de dia de trabalho. O pai, firme mas delicado, reafirma a sua posição apresentando factos e argumentos. A mãe chateia-se, é sempre a mesma coisa, porque é que ele não dorme sobre o assunto, amanhã já se terão dissipado qualquer uma das suspeitas infundadas. A mini-conversa acaba com o pai amargurado no sofá e a mãe deitada na cama a chorar, perante a verdade incontornável de tudo o que foi dito pelo pai.
Tudo igual até aqui. Mas desta vez eu decidi que ia ser diferente, que o recomeço ia ser um início e não uma repetição da mesma cena. As constantes reavaliações que somos obrigados a fazer têm como objectivo melhorar a abordagem terapêutica que assumimos com o Guilherme em todas as fases do dia. Permitir que o zero aniquile tudo o que foi feito até então é comprometer todo o projecto. Decidi repensar a perspectiva parental no dia seguinte com mais calma e debatê-las com sinceridade.
Sem dramas nocturnos, nem trágicos desfechos.
Os reinícios sim, os retrocessos, dispenso.

 

Mãe.

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