sobre o futuro

Andam para aí livros e autores de auto-ajuda e pensamento positivo suficientes para me deixar preocupado até ao Natal. Vejamos. O aumento de quota de mercado para estes distribuidores de placebos literários só significa que há mais gente a precisar de ajuda, ou seja, que é cada vez mais difícil encontrar 1. o sentido para existência 2. a forma de cumpri-lo adequadamente 3. alguém que dê um bitaite que não seja totalmente inoportuno.

Os meus avós nasceram de enxada na mão, inquestionando placidamente o futuro circular que rege a natureza e os que nela habitam. Nunca precisaram de xanax, prozac, mais platão menos prozac, psiquiatras, livros de auto-ajuda ou liftings de ego. Não emigraram, não desesperaram por Bm’s ou telemóveis, não contraíram um único empréstimo e raras as vezes beberam ou comeram algo que não tivessem criado, semeado ou destilado. A minha avó morreu aos 87 anos. O meu avô aos 92, pouco tempo depois da morte dela. Só se conheceram um ao outro.

O meu tempo exige-me assertividade e jogo de cintura. Preparação para os grandes desafios, para o futuro desconhecido, como qualquer autarca de esquina aventa em pasquins de periodicidade incerta ou nos comícios regados a tinto e Toy. Eu tenho acesso ao mundo, na ponta dos dedos, ao vastíssimo e inexplorado território cibernético que não só se expande como se reconfigura mais rápido que a moda outono/inverno. Cada vez mais nascemos de futuro traçado num repente amblíope. Não sabemos nada, ou muito pouco, da natureza, dos seus ciclos, da sua clemência e fúria. Os desastres acontecem entre o jantar e o deitar, em 40 ou 42 polegadas confortalvelmente munidas de um botão de desligar.

O que vão exigir ao meu filho? Que posso prover-lhe? Que armas, que ensinamentos, que religião, que doutrina? A ele que se recusa(?) – até agora – a participar na grande farsa do crescer-trabalhar-e-morrer para a qual fui atirado com um manual desactualizado e trocos para o café? Quem tomará conta dele quando eu não possa sequer de mim? E legar-lhe-emos um quintal ou uma lixeira? Que mundo o esperará quando dele se exigir alguma coisa? Se alguma vez lhe puderem exigir alguma coisa? Multipliquemos isto pelo factor autismo, somemos a incerteza e o cansaço e saber-se-á o que sinto. Talvez ainda um pouco aquém.

O Asper, no seu blogue, fez da realidade e do presente os temas das suas últimas entradas. Admiro a sua capacidade analítica de prover a realidade de um autista e respectivos pais sem canduras românticas nem adornos trágicos. Felizmente, para ele e para os seus leitores – uma comunidade que tem vindo a crescer na proporção dos casos de autismo e da dificuldade em encontrar esteios de compreensão e apoio – o Asper não comunga da polidez pós-moderna e do politicamente correcto. Escreve a sua versão, limpa e escorreita, sem a impor aos outros. E a sua versão tem a chancela da experiência.

A desnuda realidade com que expõe o presente do seu filho faz-me pensar no futuro do meu. Este é o meu post do ano sobre o futuro do Guilherme. Não quero, até 2008, falar mais nisso.

Pai.

Publicado em autismo. 1 Comment »

Uma resposta to “sobre o futuro”

  1. Maria Says:

    Na verdade, caro Pai, julgo que temos é que pensar sobretudo no presente: com o futuro “gastar o nosso tempo” de forma q. b..
    É como navegar ao longo da costa: convém ir um pouco além dela, mas sem nunca perder a terra de vista…


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