Em Março deste ano aceitei um emprego que, de certa forma, reconfigurou a minha vida familiar e, muito especialmente, a relação que tenho com o Guilherme. Antes desta realidade presente, em que estou ora em Barcelona, ora no Porto, ora a sair do escritório às 22h00, era eu que levava o Guilherme à infantário, muitas vezes ao médico, era eu que ia a reuniões, etc. Porque o meu anterior trabalho me garantia uma disponibilidade maior e porque o meu chefe tinha um grau de aceitação e tolerância para com as ausências justificadas elevado, a minha vida centrava-se muito mais nas necessidades do Guilherme, até porque a mãe tinha como chefe um sucedâneo moderno dos esclavagistas de algodão, cuja sensibilidade para as questões familiares assentava no modelo “orgulhosamente só”.
A partir de Março tudo mudou. Decidimos retirar o Gui do infantário; gizámos um plano de intervenção com enfoque na terapia em casa (son-rise, floortime); a mãe despediu-se e engajou-se como terapeuta a tempo inteiro; o meu contacto com a familia passou a ser pirilampar. Tudo mudou.
Desde então tenho dessenvolvido qualquer coisa como um síndroma da eterna novidade desagradável. Uma espécie de amnésia selectiva acompanhada de ilusão de esperança. Passo a explicar:
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De cada vez que me ausento, conto que as terapias que estão a ser implementadas tenham efeitos visíveis passado algum tempo. É um pensamento involuntário, nasce da associação natural que fazemos entre tratamento e melhoria.
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Quando regresso, assaltam-me sequencialmente duas disposiçoes distintas: em primeiro lugar, verifico que o Guilherme pouco o nada melhorou. Ou seja, a desilusão de não haver incrementos positivos no tempo que passei fora. Em segundo lugar, e recorrendo à imagem da amnésia selectiva, vejo o meu filho como ele é, sem o verniz da naturalidade que resulta do tempo que se passa com ele e que lhe é proporcional. São os tiques, a incompreensão do sentido das palavras e das coisas, a ausência de brincadeiras novas, as estereotipias, a incapacidade de perceber as tonalidades afectivas, etc. Sinto-me como se o visse a lado de uma criança da idade dele e me apercebesse, num repetne de desilusão, das diferenças gritantes que os separam.
Passo dois dias digerindo uma depressão à qual o cansaço laboral não será naturalmente alheio. Dois dias – que coincidem normalmente com o fim-de-semana – a guerrear e a fazer as pazes com a vida e o que ela me trouxe. Dois dias de subaproveitamento de tempo e família.
Não é só o Guilherme – e as restantes criança no especto do autismo – que necessita de terapia, de apoio, de compreensão. Os pais também necessitam. Porque o autismo e os seus efeitos não se cingem ao seu portador.

