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A minha mãe sempre foi muito céptica relativamente aos procedimentos que decidimos instituir na vida do Gui, fossem tratamentos, dietas, estimulação ou puzzles. Como qualquer mãe de três filhos e triplamente avó, sempre achou que sabia mais e melhor, porque o diabo não é mais esperto, vive é mais tempo. Quando me apanhava desprevenido e o Guilherme a ela, atafulhando-se de pão enquanto à avó estava de volta de um tacho qualquer e, virando-se, o apanhava a ele com pelo menos meio quilo de pão saloio em cada bochecha, que fazia a minha progenitora, instruída há sete séculos para proibir terminantemente a ingestão de gluten, ainda que não concordasse com a decisão nem lhe conseguíssemos explicar claramente, o que é o gluten? Metia-lhe mais duzentos e cinquenta gramas de pão em cada bochecha e barrava tudo com manteiga, para se certificar que aquilo lhe passava bem pela epiglote. O “menino precisa de comer de tudo”, sentenciava, acaso eu a apanhasse em flagra num investida gastronómica proibida. Afinal, ela sabia mais e melhor que nós, já tinha criado três filhos e pelo menos um neto e já tinha bisnetos no currículo. Eu passava algum tempo a tentar explicar-lhe a mecânica orgânica da coisa: que os autistas não desintoxicam convenientemente, dizia-lhe, que por isso é que optamos por comida biológica, tão livre de toxinas quanto possível, que existe uma teoria que suporta que as causas do autismo serão metade genéticas, metade ambientais, sendo que se pode evitar a expressão máxima genética se se tiver cuidado, tão cedo quanto seja possível, com a quantidade de neurotoxinas que o miúdo absorve, e dizia-lhe também que o gluten, assim como a caseína, do leite, eram proteínas que nos autistas podiam ser mal “partidas” nos seus correspondentes aminoácidos, originando péptidos opíodes que diminuíam a capacidade da criança em concentrar-se e prestar atenção, tornando-a mesmo inexpressiva.
A toda esta lenga-lenga ela resistiu e dava-lhe mais prazer transformar o Gui num esquilo que aforrasse para o Inverno do que qualquer outra coisa. As teorias, para ela, resumiam-se a uma: o miúdo tem de comer de tudo. Mesmo que os diabéticos e celíacos fosse apenas dois exemplos de uma muito vasta comunidade de gente que “não pode comer de tudo”. Quando lhe dizia que tinha um colega com colite ulcerosa, que pode comer muita coisa mas não de tudo, respondia “isso já é grande, não lhe falta já nada”.
Recentemente passou um programa qualquer na televisão sobre autismo e suponho que tenha sido com a Cristina Sales. Telefonou-me, combalida: “nunca mais lhe dou pão às escondidas, prometo-te, podes deixá-lo comigo à confiança, eu agora percebi”. Teve uma epifania com o deus do vídeo e toda a dieta, suplementos e teorias que suportam as intervenções fizeram sentido? Não. A verdade é que as pessoas não respondem à razão, respondem à autoridade. E a autoridade dos media suplanta largamente a de um pai preocupado que esteja informado acerca daquilo que está a fazer. E contra autoridade, não há argumento. Só espero que não tenha que mudar alguma coisa que vá contra o que a Sales tenha dito.
