Intervenção precoce

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Vou certamente ferir a susceptibilidade das convicções instaladas das duas ou três pessoas que por aqui pastoreiam a modorra ocasionalmente, mas com tanta publicidade e fé depositadas nas virtudes da intervenção precoce, é impossível, tendo em conta a minha experiência pessoal com o assunto, não alvitrar a minha opinião muito pessoal e não vinculativa sobre o assunto.

Por todas as partes, aqui, aqui e um pouco por todo o lado, está instalada a verdade mais ou menos indisputada segundo a qual a intervenção precoce é fundamental para a recuperação plena ou parcial da criança autista. Ou seja, quanto mais cedo for percebido e diagnosticada a criança, mais cedo há esperanças de melhorias substancias. Em primeiro lugar, uma pergunta: tendo em conta que as terapias disponíveis no mercado para o tratamento do autismo são mais que muitas, qual/quais delas se provam especialmente eficazes na intervenção precoce? Ou, pelo contrário, como já ouvi dizer, não interessa muito o que se faça desde que se faça cedo? Perdoem-me a deformação profissional adquirida no Ensino Superior que me obrigou, de certo modo, a cometer não infrequentemente o pecado de pensar, mas tudo isto, a mim, soa-me a qualquer coisa similar a postular que a cura da tuberculose, antes dos antibióticos, passava por detectá-la cedo e mandar o paciente para os Alpes Suíços, por exemplo, ou para as termas. Ora se para alguns isto resultava em certa medida, atrasando o progresso da doença porque o clima ameno era um aliado, ao contrário da humidade que se sente quase todo o anos em alguns países do Norte da Europa, em caso algum se podia falar em “grande esperança para a Tuberculose”, em “cura” ou em “processo importantíssimo de recuperação”; ou seja, poder-se-ia falar nesses termos e não é difícil imaginar que assim se o fazia, mas por dois motivos: porque não havia nada melhor para oferecer senão a esperança e porque havia muito dinheiro para ganhar num negócio em que a cura estava longe de ser pensada, porque as causas estavam longe de serem claras. No fundo, como dizia o Maradona (o blogger) algures no acausafoimodificada, às vezes propõem soluções de uma elegância tal e de uma evidente disparidade relativamente ao problema que pretendem resolver que, no fundo “é como fazer espargatas para matar a sede”.

Provem-me que a intervenção precoce resulta tanto como a fé na intervenção precoce parece preconizar e voltamos a falar. O Guilherme foi diagnosticado com dois anos e meio e, na altura, o bonzo de serviço disse-nos “felizmente trouxeram-no com esta idade, há muitos que só chegam aqui aos quatro”. O Gui, desde então, tem passado por tudo quanto é terapia. Temos tido azar ou fomos apenas mais umas vítimas da ignorância e da ganância? Ou há meio-termo para se perceber isto? E qual?

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3 Respostas to “Intervenção precoce”

  1. Noris Says:

    Talvez a “cura” dependa deles, não de nós, nem da precocidade da intervenção. Uns pegam logo, outros mais tarde, outro nunca. Já dei por mim a pensar que certamente haverá casos não diagnosticados, nem intervencionados, e que nem por isso correram mal…
    Beijinhos

  2. rosario filgueira Says:

    que fuerte !!!!

  3. maria anjos Says:

    Como diz a Noris, dependerá mais deles. Cada caso é único e a sua evolução também o é.
    No caso do meu filho, diagnosticado oficialmente aos 2 anos e 2 meses, a intervenção começou logo com um pacote infalivel que, de infalibilidade, só tinha a quantia mensal que dispendiamos, vendo o nosso filho, a cada dia que passava, a negar aquela intervenção (bruta, muito comportamental, enfim…) e, como esperto que sempre foi, a tentar despachar o mais depressa possivel as sessões para delas se livrar.
    Busquei novas abordagens, optei por aquilo que achei que o meu filho aderia, lhe faria bem e que nós, enquanto familia, conseguissemos suportar e cumprir (chegamos a andar 5 dias por semana, como loucos, de terapia em terapia, ficamos à beira do esgotamento, sem tempo para nós e para o outro filho!). Felizmente paramos. Passamos a fazer aquilo que achamos verdadeiramente útil, sem massacrar a criança. Optei por viver uma vida o mais normal possivel, até pelo outro filho, tive de lutar contra a imposição de rotinas rigidas que alguns terapeutas queriam para o meu filho. O tempo provou que eu tinha razão: ele está integrado no ensino regular, segue o programa normal, acompanha o ritmo dos outros, com facilidade na matemática e mais dificuldade nas palavras; não se altera com a alteração de rotinas.
    Claro que todos os dias vou lutando um pouco, contra quem lhe quer dar o rotulo e, sob a capa de coitadinho, não se esforçam por mante-lo do “lado de cá”. Também tenho tido muita sorte, em geral, nas pessoas que trabalham com o meu filho: as que dependem de mim mantenho-as.
    Resumindo, a intervenção precoce é muito importante mas não da forma que, como me parece, por norma acontece: há um método “infalivel”, é aplicado à criança e esta não tem outro remedio senão adaptar-se, quando, na minha opinião, é precisamente o contrário – há a criança e vamos ver qual a melhor intervenção para ela, que poderá passar pela abordagem de vários métodos, retirando o que faz sentido de cada um deles para aquela concreta criança. Mais importante, que a familia possa aderir e cumprir de forma a que o tratamento não seja a “morte” da familia. O meu conselho: tentem encontrar, no meio disto tudo, a normalidade possivel, pois fará bem a todos e vivam um dia de cada vez. É o que eu faço e tenho-me dado bem.
    Um abraço a todos.
    Maria Anjos


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