Coisas que ele faz que me irritam

Podia ser o título de um post escrito por um gaja, para gajas, sobre gajos. Uma espécie de convite à catarse de género sob a forma de uma entrada de um blog. E decerto o facto de estar na internet, em esplendor digital e publica e remotamente acessível, não minoraria o facto de ser um apanhado na forma do decalque de uma conversa de cabeleireiro. Patético. Como é sobre o meu filho autista, é simplesmente trágico e não convida ninguém à troça gratuita ou ao juízo moral apressado.
Não gosto que ele olhe para mim como se não existisse, como se me estivesse a fazer um favor ou como se fosse translúcido como a água.
Não gosto que ele salte em cima do sofá quando vê desenhos animados.
Não gosto que ele meta as mãos na boca.
Não gosto que ele se babe.
Não gosto que ele meta qualquer porcaria à boca.
Não gosto nada da ideia da estimulação oral (remete-me para a mais elementar e desinteressante forma de exploração do mundo).
Não gosto que ele se deixe cair e se recuse a levantar-se.
Detesto que ele não perceba o que se lhe diz.
Não gosto de vê-lo a mexer nas coisas de qualquer forma e sem intenção alguma que não manter as mãos ocupadas.
Não gosto nada da sua ausência de assertividade e vontade.
Não gosto de ele não ser curioso.
Entristece-me pensar que o castigo por algo que ele não percebe ser errado.
Não gosto que ele me puxe os cabelos.
Detesto que ele coma com as mãos.
Não gosto do apetite incrível que ele tem (e se o contrário fosse, provavelmente gostaria menos).
Não percebo por que é que o mundo pode ser tão desinteressante
nem compreendo o contentamento semi-plácido de se querer quase nada.
Convido-vos a fazer listas deste género. Repõe o nível de Ph estomacal. E sempre posso pensar que daqui a dois anos olhos para isto como quem olha para os sintomas de uma doença há muito curada.

Obrigado

Para grande felicidade familiar, a operação correu muitíssimo bem. O Guilherme, apesar de detestar anestesias e de não perceber por que é que toda a gente lhe dava tanta atençâo e o queria agarrar, portou-se lindamente (tivemos o cuidado óbvio de repetir exaustivamente que ele é autista e, desde logo, não é uma criança capaz de perceber a parte boa de ter uma agulha espetada na mão com um tubo desconfortável como apêndice).  Obrigado a todos quantos pensaram nele e lhe desejaram bem.  

as ressacas pós-natalícias e o pré-operatório

Invejo com laivos de fundamentalismo islâmico quem consegue fazer um título de três palavras que resuma aquilo que eu normalmente escrevo em pouco menos de uma dúzia. A capacidade de síntese é um dom que invejo tanto ou mais do que o talento para jogar na bolsa. Não tendo um ou outro, escrevo muito e ganho pouco. A minha herança será provavelmente composta por alguns magros tostões que serão o apêndice de dezenas de cadernos, folhas rabiscadas e outros testemunhos gráficos da minha passagem por este sítio de agradabilidade duvidosa. Aqui findo a parte da ressaca.
Eu acordo normalmente de mal com o mundo. Levo uma hora e qualquer coisa a fazer as pazes com a existência das coisas que, às oito e pico, me parecem um insulto directamente encomendado pelo Senhor na sua versão velho-vingativo-do-antigo-testamento. Com um filho autista, a duração do “meeting pacificador” é proporcional ao estado matinal do petiz: se está bem disposto e comunicativo, há como que um véu que de repente é sacudido de cima das coisas, deixando-lhes intacto o brilho e a cor que teimam em acariciar a pupila; se, pelo contrário, ele não está propriamente nos seus melhores dias, a tudo quanto me parece grotesco existir, no meu estado “normativo” (adoro esta palavra, que quer dizer exactamente o mesmo que normal mas com mais letras; é uma prova escrita que não sou o único com dificuldades de síntese) parece ser acrescido “um bocadinho assim”, o suficiente para que a minha disposição entre em modo remoinho e se escoe num rodopio de grunhidos e suspiros. Eu sou assim, instável como a vertigem. O autismo é só mais um par de maxilas ferradas nas calças que puxam continuamente até que eu caía.
E é por isso – por me andar a sentir infeliz porque espero sempre do Guilherme mais do que ele geralmente me dá – que tenho estado mais afastado disto, da blogueirice, dos intercâmbios que começam a fazer parte integrante da vida dos pais com crianças tão diferentes das restantes como umas das outras.
Entretanto vejo com grande satisfação que florescem blogues, que a comunidade virtual cresce e com ela o interessa alheio e mediático que pode estimular uma discussão pública sobre o tema que contribua para uma melhoria da qualidade de vida dos nossos filhos e lhes granjeie, pelo menos em possibilidade, um futuro melhor.
O Gui vai ser operado na Segunda-feira. Os tubinhos. O facto de ele ter repetidamente otites serosas e de não ser ainda verbal faz com que a comunidade clínica que o acompanha tente melhorar a sua audição na esperança que isso melhore ou despolete a sua verbalização. Eu sou, como já sabem, um pessimista incorrigível e desde logo não nutro as mesmas expectativas. Além do mais antevejo os problemas que advém de anestesiar e operar uma criança de 4 anos que não consegue comunicar o que sente e, até ver, aquilo que percebe de médicos e enfermeiras fá-lo chorar de cada vez que entramos numa sala de consulta.
Sei que este post foi como que bochechado, mas a minha inabilidade sintética e o cansaço que se começa a acumular não me permitem fazer uma enumeração que trace sentidos unívocos a cada ponto nem organizar este amontoado de palavras e parágrafos num texto escorreito onde se salte de um assunto para outro sem necessidade de trampolim.
Queria dizer que estou vivo. Que estamos vivos. Que é difícil todos os dias e que não tende a melhorar. Queria sobretudo dizer que gosto vos atirar estas palavras, de vez em quando, e de ouvir o som que fazem no regresso. Não deixem de ecoar.
Pai.