Podia ser o título de um post escrito por um gaja, para gajas, sobre gajos. Uma espécie de convite à catarse de género sob a forma de uma entrada de um blog. E decerto o facto de estar na internet, em esplendor digital e publica e remotamente acessível, não minoraria o facto de ser um apanhado na forma do decalque de uma conversa de cabeleireiro. Patético. Como é sobre o meu filho autista, é simplesmente trágico e não convida ninguém à troça gratuita ou ao juízo moral apressado.
Não gosto que ele olhe para mim como se não existisse, como se me estivesse a fazer um favor ou como se fosse translúcido como a água.
Não gosto que ele salte em cima do sofá quando vê desenhos animados.
Não gosto que ele meta as mãos na boca.
Não gosto que ele se babe.
Não gosto que ele meta qualquer porcaria à boca.
Não gosto nada da ideia da estimulação oral (remete-me para a mais elementar e desinteressante forma de exploração do mundo).
Não gosto que ele se deixe cair e se recuse a levantar-se.
Detesto que ele não perceba o que se lhe diz.
Não gosto de vê-lo a mexer nas coisas de qualquer forma e sem intenção alguma que não manter as mãos ocupadas.
Não gosto nada da sua ausência de assertividade e vontade.
Não gosto de ele não ser curioso.
Entristece-me pensar que o castigo por algo que ele não percebe ser errado.
Não gosto que ele me puxe os cabelos.
Detesto que ele coma com as mãos.
Não gosto do apetite incrível que ele tem (e se o contrário fosse, provavelmente gostaria menos).
Não percebo por que é que o mundo pode ser tão desinteressante
nem compreendo o contentamento semi-plácido de se querer quase nada.
Convido-vos a fazer listas deste género. Repõe o nível de Ph estomacal. E sempre posso pensar que daqui a dois anos olhos para isto como quem olha para os sintomas de uma doença há muito curada.
