Natal

Inevitavelmente, e desde que o Guilherme nasceu, os meus natais não mais foram os mesmos. As razões são muitas e quase todas elas óbvias e dolorosas. Não é fácil conviver com a expectativa alheia de quem compra um presente à espera de receber, ainda que por educação, um obrigado ou um sorriso gratificante. Para o Guilherme, a polidez das boas maneiras e a natural e bem intencionada hipocrisia com a qual disfarçamos a custo a desilusão não existem ou não fazem sentido (assim como o contrário – a expansividade associada ao recebimento daquilo que se pediu – está “desligada”). Da mesma forma, brincar com as coisas tal como quem as criou intenciona não é para ele. Por muito que as pessoas insistam
“aquilo quadrado com botões é o comando do carro” (que ele utiliza, por exemplo, para cavar um buraco no vaso da trepadeira ou para decepar um pombo desprevenido)
ele conforma a maneira como se brinca com as coisas: é a maneira dele esta última não é, normalmente, intersubjectiva.
Começo a pensar que no futuro as pessoas vão oferecer-lhe coisas sem qualquer tipo de estímulo emocional reactivo associado. Nem vão esperar pela sua reacção para passarem ao conviva do lado (normalmente mais receptivo e muito mais expansivo). Ou vão passar a dar-lhe somente “coisas lúdicas”, como puzzles do Noddy e similares. Ou passam a dar-nos dinheiro enquanto nos miram do alto da piedade e compaixão natalícias e em nós, ainda que às mijinhas e de forma sazonal, expiam o pecadilho repetido do consumismo fazendo a caridade cristã de nos dispensar uns trocos para as terapias e um soslaio de sorriso terapêutico. Ou vamos todos continuar a fingir que ele é normal e que por acaso até dão jeito os cinco carros telecomandos aos quais ele não encontra serventia no comando.