Apanhado

Há dias que me tenho sentido obrigado a escrever qualquer coisa aqui. Ou é a lógica interior e diarística que mo obriga ou confio que haja um eco com voz própria do outro lado da linha. Seja como for, há muito por dizer e dada a escassez de tempo, o registo será ao modo de lista de supermercado, com permissão de extravagância em dois ou três pontos que me parecem importantes.

  1. A mãe do Guilherme estruturou-lhe um horário disciplinado com diversas horas de terapias semanais que vão desde o trabalho de mesa propriamente dito até à hipoterapia. A aposta é a multiplicidade de focos interventivos no sentido de bombardeá-lo de estímulos, organizados, medir-lhe a capacidade e frequência de resposta e aumentar uns e diminuir outros consoante os progressos. Uma espécie de terapia “à la House” cujo sucesso depende de memória elefantesca, registos diários, senso-comum e uma dose maciça de intuição. Temos fé.

  2. Eliminámos o leite da dieta do Guilherme, tendo como objectivo último retirar todo o glúten e a caseína. Não conheço nenhum médico português que seja capaz de aconselhar esta aproximação. Aliás, não conheço nenhum que não compare tudo quanto ultrapasse as terapias que prescevem à banha da cobra. Sendo o autismo e derivados um produto altamente rentável do ponto de vista do vendedor (clientes dispostos a tudo para obter 1/10 daquilo que o produto diz fazer, o sonho de qualquer marketeer) percebo-lhes o escrúpulo. Dado estarmos numa país onde a saúde é um feudo ou uma coutada onde só quem tem tripla especialidade pode opinar mesmo que haja centenas de teses contrárias e bem fundamentadas, permitam-me a mim, mero mortal dotado de dois hemisférios pensantes, discordar. Meu filho, minha especialidade. Verificamos, por ora, que a sua atenção subiu uns graus e que parece ter menos sono. Pode ser uma fase, pode ser consequência directa do que estamos a fazer.

  3. A Mãe está no final da redacção de um projecto que permita financiar esta aventura terapêutica. Como não temos pais ricos nem fomos onde toda a gente sabe, precisamos de dinheiro que nos permita cumprir com os prazos e os valores dos que fornecem o conteúdo terapêutico em si. Se tiverem boas ideias (que não usem), ventilem-nas. Obrigado.

  4. Quando ainda há pouco tempo me lamentava relativamente aos progressos do meu filho e achava conveniente rever toda a estratégia ou desistir, a força de vontade e determinação alheias – neste caso, da mãe do Guilherme – fizeram-me rever – em sentido positivo – o futuro (que muitíssimo tem de aberto) do Gui. 

 

Ainda não estou em paz comigo. Acordo muitas vezes angustiado quando há poucos anos um terramoto seria insuficiente para beliscar a profundidade do meu sono. Sei que muito do ácido que o meu estômago produz tem como causa primeva a minha impotência para mudar imediatamente tudo. Aceito, tão devagar como penosamente, a diferença; com o mesmo ritmo recauchuto a esperança. Para equilibrar, ainda que brevissimamente, o saldo das minhas disposições.  

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Os regressos, em geral

Em Março deste ano aceitei um emprego que, de certa forma, reconfigurou a minha vida familiar e, muito especialmente, a relação que tenho com o Guilherme. Antes desta realidade presente, em que estou ora em Barcelona, ora no Porto, ora a sair do escritório às 22h00, era eu que levava o Guilherme à infantário, muitas vezes ao médico, era eu que ia a reuniões, etc. Porque o meu anterior trabalho me garantia uma disponibilidade maior e porque o meu chefe tinha um grau de aceitação e tolerância para com as ausências justificadas elevado, a minha vida centrava-se muito mais nas necessidades do Guilherme, até porque a mãe tinha como chefe um sucedâneo moderno dos esclavagistas de algodão, cuja sensibilidade para as questões familiares assentava no modelo “orgulhosamente só”.

A partir de Março tudo mudou. Decidimos retirar o Gui do infantário; gizámos um plano de intervenção com enfoque na terapia em casa (son-rise, floortime); a mãe despediu-se e engajou-se como terapeuta a tempo inteiro; o meu contacto com a familia passou a ser pirilampar. Tudo mudou.

Desde então tenho dessenvolvido qualquer coisa como um síndroma da eterna novidade desagradável. Uma espécie de amnésia selectiva acompanhada de ilusão de esperança. Passo a explicar:

  1. De cada vez que me ausento, conto que as terapias que estão a ser implementadas tenham efeitos visíveis passado algum tempo. É um pensamento involuntário, nasce da associação natural que fazemos entre tratamento e melhoria.

  2. Quando regresso, assaltam-me sequencialmente duas disposiçoes distintas: em primeiro lugar, verifico que o Guilherme pouco o nada melhorou. Ou seja, a desilusão de não haver incrementos positivos no tempo que passei fora. Em segundo lugar, e recorrendo à imagem da amnésia selectiva, vejo o meu filho como ele é, sem o verniz da naturalidade que resulta do tempo que se passa com ele e que lhe é proporcional. São os tiques, a incompreensão do sentido das palavras e das coisas, a ausência de brincadeiras novas, as estereotipias, a incapacidade de perceber as tonalidades afectivas, etc. Sinto-me como se o visse a lado de uma criança da idade dele e me apercebesse, num repetne de desilusão, das diferenças gritantes que os separam.

Passo dois dias digerindo uma depressão à qual o cansaço laboral não será naturalmente alheio. Dois dias – que coincidem normalmente com o fim-de-semana – a guerrear e a fazer as pazes com a vida e o que ela me trouxe. Dois dias de subaproveitamento de tempo e família.

Não é só o Guilherme – e as restantes criança no especto do autismo – que necessita de terapia, de apoio, de compreensão. Os pais também necessitam. Porque o autismo e os seus efeitos não se cingem ao seu portador. 

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Regresso, parte III

Ainda há poucos dias contava-me a mãe do Guilherme (ao telefone, porque desde que aceitei o emprego em que estou vemo-nos menos que líderes de países em guerra) que o rebento está feliz no novo infantário, que se ri para os colegas, que se diverte e que toda a gente o trata, aparentemente e à primeira vista, como o menino muito especial que ele é.

Não querendo desfazer a possibilidade de haver gente com vida pior que eu (tão certo como haver outras vidas que não a minha), a verdade é que esta á a segunda boa notícia que recebo nos últimos seis meses. Em relação ao Guilherme, é a grande notícia do ano, motivo para abrir a garrafa de Raposeira que sobrou do ano novo e que nunca temos coragem, sob pretexto algum, de estourar, por superstição infundada que o motivo não mereça a pena.

As nossas terapeutas estão radiantes com a sua integração (se estiver errado em relação a isto, desmitam-me num páragrafo de açoite público). Eu estou radiante. Menos um problema. Um grande e penoso problema que fica enterrado, com o rabo de fora, até que ele mude de infantário ou que tenha de ir para a primária. Temos dois, três anos para pensar em alternativas, tantas quanto a sua evolução nos permita abranger. Está nas mãos dele. Como sempre.