Há dias que me tenho sentido obrigado a escrever qualquer coisa aqui. Ou é a lógica interior e diarística que mo obriga ou confio que haja um eco com voz própria do outro lado da linha. Seja como for, há muito por dizer e dada a escassez de tempo, o registo será ao modo de lista de supermercado, com permissão de extravagância em dois ou três pontos que me parecem importantes.
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A mãe do Guilherme estruturou-lhe um horário disciplinado com diversas horas de terapias semanais que vão desde o trabalho de mesa propriamente dito até à hipoterapia. A aposta é a multiplicidade de focos interventivos no sentido de bombardeá-lo de estímulos, organizados, medir-lhe a capacidade e frequência de resposta e aumentar uns e diminuir outros consoante os progressos. Uma espécie de terapia “à la House” cujo sucesso depende de memória elefantesca, registos diários, senso-comum e uma dose maciça de intuição. Temos fé.
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Eliminámos o leite da dieta do Guilherme, tendo como objectivo último retirar todo o glúten e a caseína. Não conheço nenhum médico português que seja capaz de aconselhar esta aproximação. Aliás, não conheço nenhum que não compare tudo quanto ultrapasse as terapias que prescevem à banha da cobra. Sendo o autismo e derivados um produto altamente rentável do ponto de vista do vendedor (clientes dispostos a tudo para obter 1/10 daquilo que o produto diz fazer, o sonho de qualquer marketeer) percebo-lhes o escrúpulo. Dado estarmos numa país onde a saúde é um feudo ou uma coutada onde só quem tem tripla especialidade pode opinar mesmo que haja centenas de teses contrárias e bem fundamentadas, permitam-me a mim, mero mortal dotado de dois hemisférios pensantes, discordar. Meu filho, minha especialidade. Verificamos, por ora, que a sua atenção subiu uns graus e que parece ter menos sono. Pode ser uma fase, pode ser consequência directa do que estamos a fazer.
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A Mãe está no final da redacção de um projecto que permita financiar esta aventura terapêutica. Como não temos pais ricos nem fomos onde toda a gente sabe, precisamos de dinheiro que nos permita cumprir com os prazos e os valores dos que fornecem o conteúdo terapêutico em si. Se tiverem boas ideias (que não usem), ventilem-nas. Obrigado.
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Quando ainda há pouco tempo me lamentava relativamente aos progressos do meu filho e achava conveniente rever toda a estratégia ou desistir, a força de vontade e determinação alheias – neste caso, da mãe do Guilherme – fizeram-me rever – em sentido positivo – o futuro (que muitíssimo tem de aberto) do Gui.
Ainda não estou em paz comigo. Acordo muitas vezes angustiado quando há poucos anos um terramoto seria insuficiente para beliscar a profundidade do meu sono. Sei que muito do ácido que o meu estômago produz tem como causa primeva a minha impotência para mudar imediatamente tudo. Aceito, tão devagar como penosamente, a diferença; com o mesmo ritmo recauchuto a esperança. Para equilibrar, ainda que brevissimamente, o saldo das minhas disposições.
