Regresso II

O Ghuilherme fez ontem 4 anos. Se o Guilherme fosse uma criança normal, ter-me-ia pedido um mundo de coisas de entre as quais eu seleccionaria a que ele mais gostasse para lhe ver decalcada no rosto a natural felicidade das expectativas infantis cumpridas. Teríamos cantando os parabéns em uníssono e festejado de coração aberto o contentamento de quem vê o futuro de janela aberta. Fosse o Guilherme o típico menino pré-primário e não haveria descanso em casa e arredores até que o centro de gravidade do mundo não fosse alterado por decreto e fixado com pompa e circunstância no umbigo infantil.

Obviamente, o Guilherme está longe de ser normal. Há um anos atrás, perto de cumprir três primaveras, o Guilherme, durante as férias, começou a apontar insistentemente, a balbuciar uns vocábulos e a tomar atenção ao que lhe dizíamos. Foi o mais perto que esteve de eu lhe imaginar um futuro despovoado do pessimismo costumeiro. Foi como se de repente ele houvesse dado umas voltas de avanço às outras crianças para na surpresa das férias decidir recuperar o tempo perdido. Nunca o vimos fazer tanto em tão pouco tempo (e não sei até que ponto não temos por certo que nunca mais o veremos). Durou até ao dia exacto de ele entrar para a creche. No dia seguinte já não apontava. Deixou de tentar vocalizar a demonstração ou o desejo.  Trancou as portas. Até hoje.

Passámos este ano a mudar de médicos, a mudar de terapeutas, a mudar de vida e de empregos na esperança de revertê-lo, pelo menos e sem pedir muito mais, à condição de há um ano atrás. Sem querer puxar o lustro à prata da casa – e sem grande esforço para evitá-lo – temos de conceder que, no meio da borrasca, ainda conseguimos angariar as mais fantásticas e heterodoxas terapeutas do mundo.  Tirámo-lo do infantário (a mãe disse sem saudade adeus ao trabalho),  gizámos um programa de recuperação e apontámos baterias para tê-lo mais perto de nós por esta altura em que escrevo.

Eu posso afirmar, sem recorrências patéticas ao síndrome do ‘coitadinho de mim’, que não nutro particular apreço pelo meu aniversário. Prefiro o dos outros. Talvez por ainda estar relativamente longe daquilo a que almejo não vejo que haja razões para grande comemoração. Não consigo desligar a existência dos propósitos aos quais a associamos e celebrar simplesmente o facto de estar vivo. Defeito de carácter. Infelizmente, estende-se àqueles que amo.

Ontem não pude deixar de recapitular todo um ano de esforços e esperança. A custo agradeci os costumeiros parabéns ao pai. A custo não transformo uma festa familiar num pretexto para vazar tragédias. Não há esforço que me faça sentir motivo para comemorar.

 

 

 

BALANÇO I

Este é o 1º balanço do 2º capítulo. Sim, é um capítulo…. pai, acho que não é uma parte.

Este balanço é muito positivo! Ao 4º dia de escola, a mãe foi buscar o Gui e ele nem estava a chorar, nem começou a chorar quando viu a mãe!

Grande Gui!

Espero que nunca sintas o que está à tua volta como eu sinto. Temos que analisar o que se está a passar. Quota parte do trabalho do terapeuta/ especialista? 

Então é assim: a escolinha do Guilherme tem uma sala TEACCH… uma unidade de ensino estruturado, como o ministério gosta de lhe chamar, não vão os pais começar a exigir o cumprimento de aspectos do programa, ou conhece-lo melhor do que os técnicos. Sim, esta unidade abriu no ano passado. Os pais devem saber duas coisas: 1) que esta sala serve a zona oriental de Lisboa e que várias crianças recebem ali uma resposta muito adequada (já voltarei a esta avaliação muito adequada), na sua zona de residência e que o Ministério está muito contente, está a publicita-la e está a colher os louros!; 2) que esta sala só recebeu o mobiliário necessário -da Câmara- em Janeiro (Abriu em Outubro 06, com alguma paciência dos pais) e um computador - da DREL – em Março!!

Bom o ministério meteu técnicos no terreno, permitiu aos docentes fazerem formação, dinamizou uma série de outros recursos!! Mas, análise de terapeuta, o ensino estruturado assenta em 4 pilares principais, sendo que um deles é a informação visual, só possível de elaborar com um dicionário de imagens informático… e um computador; e um outro pilar é a estrutura espacial, só possível com novo mobiliário adequado.

Voltanto à avaliação muito adequado. De onde vêm estes resultados? Claro, da boa vontade. Portugal é mesmo o país da boa vontade! Da boa vontade dos pais destes meninos, que souberam esperar; que pediram, ao abrigo do mecenato equipamento para a sala a amigos e conhecidos e que deram uma contribuição do seu próprio bolso. É muito escusado, mas vou dize-lo na mesma. Alguns pais fizeram mesmo a sala acontecer, junto de contactos ministeriais.

Mas também da boa vontade dos docentes da sala! Destas docentes que deram horas sem as contar. que fizeram da sala um projecto de inclusão, escrevendo inúmeras cartas de mecenato e, literalmente, estenderam a mão… não vamos contar todos os esforços… quem corre por gosto…

Se esta sala não tem encontrado estas docentes pela frente, garanto que isto não seria possível! Uma delas é agora a educadora de apoio do Guilherme. E se fosse outra? Onde estavamos neste ponto???

Afinal o nosso sitema é uma lotaria! Vá lá, vá lá, quando os pais vão ao ministério ameaçar com uma notícia para um jornal, com uma carta para a inspecção… na semana seguinte têm mais um docente e uma auxiliar… o que for preciso.

Se calhar é mesmo assim. Num mundo em que decididamente somos demais, há que lutar pelos nossos e puxar para eles os recursos insuficientes… os outros?… não conheço…

Viva o Gui.

regresso

A temporada II deste Blog promete emoção e supresa em contínuo. Irá o Guilherme adaptar-se ao novo infantário, onde tem o apoio garantido de uma terapeuta de ensino especial (mais difícil de conseguir que uma mesa no Buli’s?) Irão os pais continuar o programa de intervenção domicialiar adiando, sem fim à vista, a prossecução da carreira da mãe? Estarão todos os intervenientes no processo de integração e boas-vindas do Guilherme no mundo normalizado aptos a abrir-lhe as portas correctas? Estará ele apto? Não percam os próximos capítulos.